Hoje, 23 de Setembro de 2009, estamos inaugurando a série de postagens com os assuntos que trataremos em nosso blog. Inovações e alterações de aparência ocorrerão, certamente, à medida que eu for dominando a dinâmica da gestão desse meio de interação e comunicação e suas ferramentas de configurações, pois ainda sou bem leigo nas mesmas. No entanto, já é possível comerçarmos a compartilhar pensamentos.
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Escolhi começar com um assunto prático, porém, como todos sabemos, nem tão comum em rodas de conversas sobre os relacionamentos, em função do desejo/necessidade da não autoexposição: finitude do amor. Não estou começando com um tema exclusivo para as mulheres - e, talvez, demoremos um pouco a entrar em assuntos exclusivamente femininos, devido à necessidade de alguns nivelamentos de conceitos para melhor condução das conversas. Porém, na verdade, são as que mais acreditam no amor eterno. Trata-se de um pequeno trecho do meu livro, que ainda está no forno, chamado Paridade Sexual. Porém, antes da leitura do texto, sugiro que sejam lidas as partes “A proposta” e “Quem sou”, para que o(a) leitor(a) entenda bem as minhas motivações e a proposta da criação deste blog. Vamos ao texto.
Vou conduzi-la por um raciocínio libertário e bastante subjetivo e, provavelmente, serei apedrejado pelos românticos. Nada é absoluto, tudo é relativo, inclusive o amor. Até acredito em um amor infinito entre um homem e uma mulher. No entanto, penso ser extremamente difícil esse sentimento durar tantos anos, se formos considerá-lo em sua forma pura, liberta, livre das convenções e intervenções culturais. A realidade de uma pessoa encontra-se em eterna mudança. A forma de enxergar o mundo que a rodeia, o que provoca ira, acalma, excita, suas ansiedades, desejos, objetivos, amizades, sexualidade, exigências, razão, emoção, tudo muda, com o passar dos anos, gerando escolhas distintas. As leituras que fazemos do mundo, das pessoas e de nós mesmos vão sendo alteradas, em nosso íntimo. É como ler o mesmo livro com vinte anos de idade, depois com trinta, quarenta e cinquenta. Serão quatro leituras, interpretações e sensações diferentes. Se, em cada fase, tivéssemos que emitir parecer sobre um mesmo trecho dessa literatura, certamente, teríamos quatro pontos de vista distintos. A mesma imagem recebida através de lentes diferentes, gerando em nós informações diferentes. Baseado nessa irrefutável realidade, como pode alguém amar, da mesma forma, a mesma pessoa, ao longo de tantas mudanças, por tantos anos? Quando um homem e uma mulher se encontram nessa vida e resolvem casar, é porque, naquele momento, no tempo e no espaço, encontravam-se no mesmo caminho ou em estradas parecidas. Porém, as opções por pegar atalhos, correr, andar, parar, descansar, sair da estrada, retroceder ou até mesmo mudar o destino é estritamente individual. Em uma encruzilhada cheia de opções, no íntimo de cada um, dificilmente optariam sempre pelas mesmas escolhas, ao longo de anos.
Vamos tomar como referências os ex-casados e ex-namorados. Cada pessoa tem a sua importância e com ela desejamos estar ao lado em um momento bem definido de nossa trajetória. Após a sua partida, fazemos outra escolha, baseados em outras necessidades e ansiedades. Então, deixa de existir o encaixe para que aquela pessoa retorne à nossa companhia, pois os dentes da engrenagem que nos impulsiona em direção às nossas escolhas e que bombeia a fragrância que dá aroma à nossa vida são alterados em tamanho e forma. Após diversas transformações em nosso ser, olhamos para trás e, muitas das vezes, nem entendemos direito como fizemos aquela escolha, naquele momento, pois não pensamos mais daquela forma.
Logo, o verdadeiro amor por uma pessoa hoje escolhida, aquele que vem da alma e que se encontra em perfeita harmonia com os atuais desejos existentes em nossas entranhas, dificilmente será eterno. A única chance de que o seja estaria condicionada a mudanças perfeitamente harmoniosas e sincronizadas entre ambos, ao longo dos anos, coincidentemente sempre nas mesmas direções. Difícil, não? Assim sendo, é perfeitamente compreensível a lacuna, em termos de percepção do cônjuge, que passa a existir, depois de anos de casamento. Nos arredores da época da decisão pela união, afirmamos que o outro nos completa. Com o passar dos anos, instala-se a sensação de que isso vai deixando de ser uma realidade e, aos poucos, vamos ficando mais atentos ao que ocorre no mundo lá fora, fora do eixo eu e o(a) companheiro(a).
Por outro lado, compreender e aceitar a temporalidade e relatividade da sensação de satisfação plena, através do amor pelo cônjuge, conduz-nos a um sério paradoxo que se choca com dogmas, pressupostos socialmente incontestáveis e expectativas aprendidas sobre a formação da família. Esse pensamento me permite criar um silogismo. Partindo da premissa de que as características que nos atraem em uma pessoa, levando-nos à percepção do amor, são alteradas com o passar do tempo, e de que a união de duas pessoas deveria ser, sempre, baseada na admiração, atração e amor verdadeiros, teremos como conclusão que o matrimônio, dificilmente, seria, com esses ingredientes, para sempre. Acabamos de criar uma bomba atômica aniquiladora do senso comum de perpetuação da milenar instituição casamento. Beco sem saída?Nosso modelo de casamento está longe de atender aos nossos anseios essenciais. As frustrações geradas têm conduzido pessoas a um estado de depressão psíquica e, pelo menos nas grandes cidades, levado muitas a buscar tratamentos psicoterápicos de apoio ou mesmo psicanalíticos, visando ao restabelecimento dos seus equilíbrios emocionais.
Trata-se de uma questão de irrefutável complexidade e creio que de contradição insolúvel, dentro da normalidade cultural. Entretanto, acredito que existam formas práticas de minimizá-la. Já conversamos sobre isso, quando ofereci várias reflexões sobre características realmente importantes e que devem ser buscadas e cultivadas, desde o início da relação, a fim de se obter a transparência mútua das almas de cada um, minimizando, dessa forma, as possibilidades de desagradáveis surpresas. Em minha opinião, a decisão pelo casamento, da forma que é conduzida e tomada pelos noivos, tende à banalização e irresponsabilidade, quando confrontamos a falta do correto juízo do que é realmente o amor e os problemas do matrimônio com a romântica perpetuidade da vida a dois disseminada pela nossa sociedade. Observo casais a caminho do altar, com pelo menos um deles já sabendo que não dará certo e que não será feliz. Porém, “como voltar atrás depois de, por exemplo, 8 anos de namoro e noivado?” Onde se lê “o mais importante é o amor”, leia-se “o mais importante é casar”.
Levando em consideração esse relativismo e a contradição por ele provocada, fica fácil inferir a importância do já comentado real conhecimento entre o casal, desde o início, para que ambos saibam situar, com clareza, a posição de cada um em relação à vida e à tendência de rumos que, mais à frente, poderiam, individualmente optar.
O conhecimento da existência dessa questão e da atitude necessária com relação à escolha do parceiro, absolutamente, não anula a viabilidade de um agradável romance e é fundamental para que, pelo menos, sejam diminuídas as possibilidades de afastamentos tão significativos que tornem a relação insuportável, como tanto vemos. Porém, não somos educados com a honestidade necessária para isso se torne claro. Vemos casais se unindo e, já no início, tão diferentes, impulsionados por um romantismo insensato e pelas mais diversas razões e conveniências. “Os opostos se atraem”. Ingenuamente – prefiro dizer que, de forma romanticamente irresponsável, acham que, mais à frente, o amor convergirá caminhos que já se iniciaram divergentes, com filosofias de vida e comportamentos tão distintos. Tolice. Aqueles que acreditam nesse milagre, só me resta lhes agraciar com um ácido “bem-vindo ao mundo dos frustrados”.
Mesmo diante da consideração lúcida da finitude do amor como algo factual, o sofrimento, frustração e demais sequelas psíquicas negativas que recaem sobre o parceiro “rejeitado” não podem ser encaradas como normais e inevitáveis, intrínsecas ao ato de amar, como fantasia a sociedade. Estas consequências são decorrentes do romantismo, que não permite verdadeiros conhecimentos mútuos entre o casal. Dessa forma, ambos – normalmente, um mais do que o outro – ficam na condição de ludibriados, pois não conhecendo o âmago do seu par, como alguém poderá decidir e escolher, conscientemente, baseado primeiro em fatos, depois em sentimentos, o seu futuro parceiro? Uma decisão consciente precisa ser baseada em informações verdadeiras. Não fornecê-las é covardia. Nas relações românticas, com o tempo, ou alguém cansa de mentir ou adoece psiquicamente… ou ambos. Daí as inevitáveis frustrações.
Quando buscamos e permitimos o surgimento do amor verdadeiro e consequente prazer real do casal conviver debaixo do mesmo teto ou com algum tipo de compromisso mútuo – e a condição sine qua non para que isso aconteça é a apresentação transparente de suas almas, desejos, anseios e sexualidades, sem medos e julgamentos, a única coisa que podemos garantir é a elevada qualidade da relação, enquanto durar. Ainda nessa agradável situação, também podemos ter a certeza de que, diferentemente das relações românticas possessivas e superficiais, onde o que importa é a egoísta busca do suprimento das próprias ansiedades e inseguranças - seja na qualidade de dominador ou de dominado, a jornada a dois entre pessoas autênticas, se e quando termina, não há feridos, frustrados, enganados, pois onde há verdade não há mágoa ou desilusão. Bons sentimentos permanecem: saudade, carinho, amizade, admiração… em quem parte… e para surpresa daqueles que nunca viveram uma relação como essa: inclusive em quem é deixado.

