3. Por que as mulheres são tão tristes?

A nossa amiga Bárbara nos indicou uma matéria interessante que saiu na revista Época, dessa semana, intitulada “Por que as mulheres são tão tristes?”

http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/0,,EMI98917-15228-1,00-POR+QUE+AS+MULHERES+SAO+TAO+TRISTES.html

Claro que uma leitura comportamental sempre vale a pena, no mínimo, sob o ponto de vista crítico. Fazendo eu a minha, achei-a simplista demais e sua conclusão, equivocada. Apreciei a matéria, em termos estatísticos, por reforçar o que venho afirmando e escrevendo: em maior ou menor grau, a grande maioria das mulheres é frustrada. No entanto, mais uma vez, não foi abordado o cerne da questão, por uma razão muito óbvia: como fazer estatística sobre um assunto que não é assumido e conversado?
“…A emancipação feminina é como um contrato que foi assinado sem ter sido lido direito e que agora precisa ser renegociado”. A reportagem atribui essa afirmação à redatora de televisão carioca, Claudia Valli. Basicamente, essa é a mensagem que tiramos da pesquisa, tentando mostrar que a vida das mulheres ficou bem mais dura depois que elas começaram a entrar no mercado de trabalho. Faço ressalvas a essa afirmação e discordo de várias razões apresentadas como causas. A mulher está muito distante de sua emancipação. Esse processo ainda é muito incipiente.
Em minha opinião, o “acúmulo de velhas tarefas com novas responsabilidades”, ou seja, a soma da jornada de trabalho remunerado com os cuidados domésticos, não justifica os dissabores femininos e estão longe de ser a razão da frustração da mulher. Supor que aquela subjugada e completamente dependente de cem anos atrás poderia ser mais feliz do que uma mulher moderna esclarecida e financeiramente independente, somente porque a mulher do terceiro milênio fica bem menos tempo dentro de casa e precisa ser mais vaidosa, é, no mínimo, uma mensagem míope. Não tenho dúvidas de que a autoestima da mulher que ganha seu próprio dinheiro e se vê mais livre para tomar as suas decisões é mais elevada do que nunca.
Para não me estender muito, afirmo que a verdadeira fonte dessa tristeza é, em uma visão macro, a grande e ainda existente dificuldade que a mulher possui para exercer a sua sexualidade plena. Esta vai muito além do sexo em si. Se o gênero e sua assumida orientação sexual influenciam a forma com que um homem, mulher, gay, travesti, lésbica, etc, relacionam-se no trabalho, com parentes, amigos, parceiros, filhos, etc, restringindo ou impulsionando, dificultando ou facilitando, estamos falando do exercício da sexualidade. Para melhor esclarecimento, segue uma observação existente no dicionário WIKIPEDIA, com a qual concordo:
“Atualmente, ocorre, por parte de alguns estudiosos, a tentativa de descolar a sexualidade da noção de reprodução animal associada ao sexo. Enquanto essa noção se prende ao nível físico do homem enquanto animal, a sexualidade tenderia a se referir ao plano psicológico do indivíduo. Além dos fatores biológicos (anatômicos, fisiológicos, etc.), a sexualidade de um indivíduo pode ser fortemente afetada pelo ambiente sócio-cultural e religioso em que está inserido.”
Assim sendo e, tendo a dificuldade do exercício da sexualidade como motivo macro, comentarei algumas razões que considero fontes das angústias femininas:
- a informação. Cada vez mais mulheres nas faculdades, no mercado de trabalho e, através das mídias – principalmente da Internet, tendo acesso ao que ocorre no mundo. Com isso, passam a existir muitas outras referências de comportamento feminino, além de meia dúzia de vizinhas de porta e carolas. Essas informações estão fazendo com que as mulheres percebam, cada vez mais, que podem ser muito mais do que mães e esposas;
- a mulher culta e possuidora de parcial ou total independência financeira, diferentemente do homem, continua não se sentindo livre. Ela permanece aprisionada na cultura machista, em todos os sentidos. Quando a mulher é completamente dependente do homem, basta um “passo errado” para que ela se veja, de repente, com os seus mimos ameaçados. Ela não quer perder o seu provedor e isso é um grande estímulo para que se conforme com a castração de sua sexualidade – muitas das vezes somente aparentemente, não lhe restando outra opção que não seja representar seus personagens de mãe e esposa felizes. Porém, a sua tristeza real, absolutamente, é menor do que a de uma outra que trabalhe fora dez a doze horas por dia. Pelo contrário, em geral, é muito maior. Por outro lado, quanto mais “dona do seu nariz” a mulher é, mais ela se angustia, devido à não aceitação, por parte da sociedade, da forma que ela realmente gostaria de agir, pois, nesse caso, possui condição de arcar com qualquer despesa para satisfazer suas escolhas e caprichos. Mas não pode, pois não é livre. A tal fato, soma-se a percepção de sua impotência para se assumir e transgredir.
- o homem, mesmo tendo personagens a representar diante da família e da sociedade, busca e consegue, com regularidade, fugas para ter momentos de autenticidade, para falar tudo o que pensa e contar suas conquistas e aventuras. Quanto mais eroticamente bizzaras forem, mais admirado é pelos ouvintes. Na roda de chope, no futebol, nos intervalos no trabalho, com as amantes, ele faz várias incursões e visitas ao seu eu animal, sem culpa, sem ser julgado e com real prazer. E a mulher? Quantas se permitem fazer isso sem culpas, sem ser julgadas e com reais prazeres? E se elas se permitissem, quantos as aceitariam sem julgamentos? A obrigação de ter que guardar segredos sobre suas experiências, seus pensamentos, idéias, vontades, insatisfações, faz com que a mulher se sinta solitária. Daí advém a comum declaração que tanto estamos acostumados a ouvir: “Depois de anos de casamento, não estou sozinha, tenho marido e filhos ao meu redor, mas me sinto completamente solitária”.
Para mim, essas são as reais razões pelas quais as mulheres são tão tristes. Não são razões que apareceram depois da revolução industrial e da entrada feminina no mercado de trabalho. As mulheres não estão apenas cansadas de trabalhar. Suas exaustões são psíquicas, pois realmente cobram perfeição dos papéis das atrizes que precisam ser. Se pudessem ser autênticas e fossem estimuladas a isso, o quadro seria diferente. Muitas estão cansadas de suas impotências para sem culpas “transgredir” a moral e, com pensamentos livres de pressões externas e interiores, tirar suas próprias conclusões. As mais maduras – balzaquianas e inseridas no mercado de trabalho, como foi o alvo da pesquisa – estão mais desiludidas e tristes por não encontrarem os parceiros que as compreendam e respeitem como mulheres com M e independentes. Antes, conversar sobre diversas questões com o marido era algo inimaginável. Hoje buscam eco para os seus pensamentos… e não encontram. “Melhor ficar sozinha…” Muitas não conseguem um diálogo franco nem consigo mesmas. Algumas crêem que a voz que sai de suas entranhas é a voz do Diabo.

Resumindo, achei a reportagem machista, como se quisessem levar as mulheres a refletir sobre os ganhos do retorno à beira do fogão.

Eu já brinquei com a Bárbara (a psicóloga), dizendo que o meu sonho utópico é acabar com a profissão dela. E isso só seria possível quando as pessoas deixassem de tentar ser o que esperam que elas sejam para ser o que realmente são. Mais uma vez, utopia.

A visão romântica das pessoas as leva a considerar e confundir coragem, ousadia, inquietude e desconforto com infelicidade. Partindo dessa premissa, se o mundo tivesse sido habitado sempre por pessoas felizes, ainda estaríamos usando lamparinas que utilizam algum líquido combustível, andando a cavalo, continuaria sendo proibido fazer sexo durante a menstruação e gravidez, amamentar, assim como se masturbar, etc. Se essas proibições absurdas caíram em desuso, precisamos agradecer aos “infelizes” que resolveram ousar e disseminar suas idéias.

Castração das liberdades de pensamento e expressão, da essência e do livre arbítrio cansa, entristece e adoece.

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3 Comentários para 3. Por que as mulheres são tão tristes?

  1. Viviane escreveu:

    Rolaria um mito da FELICIDADE??

  2. sergio capilari escreveu:

    vai-se a extratosfera em vão: és eternamente responsavel por aquilo que cativas. SE., o evento do 8 de março, trouxe aos nossos dias, em proporções geometricas a tendencia de liberdade/igualdade, mas ao mesmo tempo nos tange de roldão, a expressao usada em mercado; oferta e demanda e as suas consequencias, o romantimo e o endeusamento da mulher cantado em prosa e verso que nos embala a todos; tu és, divina e graciosa estatua majestosa de pixinguinha, cavalgada de RC, e tantos outros hinos de louvação a mulher, os gestos de cavalheirismo tão raros ultimamente, hoje substituidos por ´´ sua cachorra´´ e tantos outros insultos a mulher traduzidos numa das maiores expressões culturais. Com licença eu vou a luta seriado da tv globo interpretado por regina duarte, corrobora, numa das brilantes intervenções de jabour, coloca a lume, esta tristeza de que trata o texto, a solidão, baladas, sexo,bebidas, e voltam pra casa sozinhas, no fundo, o carro, apartamento e emprego, nao chegam a completar, falta, digamos o sal do mingau, a presença fisica, o toque o aconchego, a conversa o olho no olho.
    a expectativa da mulher hoje, especialmente a que deu o grito de independencia, carece de um algo mais, ela experimentou, vivenciou, e esta cada vez nais exigente, e em especial de uma conversa agradavel, sintonizada, equilibrada, pareada,para as que ousaram o preconceito nao alcança, discordo com a afirmativa de que a mulher não conte os seus feitos assim como os homens, se ela tem carro, apto e emprego e formação e ate filho, não depende de homem nao eh tratada como vulgar, pode transar a vontade, o preconceito estacionou apenas nas que dependem.elas se dão ao luxo de levar pra casa do porco, apenas a linguiça, ate pq o sexo é finito, mas as manifestações de prazer não, o sexo recomeça com o fim de uma sessão.
    para tudo tem um custo equivalente, não esqueçamos de que o tempo não pára como disse cazuza.

  3. Administrador escreveu:

    Olá, Capilari. Uma ou duas vezes, em artigos anteriores, eu defendi ser sensato enxergar o atual comportamento feminino – com todas as suas conquistas e dificuldades ainda existentes – como um frame, apenas um quadro do desdobramento de um filme que começou há cerca de um século e que está longe de ter o seu epílogo desenhado – isso se aplica a tudo quanto é tipo de costume de um povo. Se não pararmos para observar, na história, as incontáveis vezes em que o Estado afrouxou ou apertou a liberdade individual, sob o comando da Igreja e de acordo com os interesses da cúpula detentora do poder, seremos coniventes com os idiotas conceitos de certo e errado. Ora é errado/pecado, ora é certo ou aceitável. Essas mudanças de humor do clero e de suas tolerâncias, curiosamente, funcionam como a famosa lei do mercado, sobre demanda e oferta: muitos fiéis, posso apertar; evasão de fiéis, tem que afrouxar. De forma interessante, de cem anos para cá, devido ao gradual distanciamento do povo dos dogmas religiosos, o Vaticano não para de fazer concessões. Os trajes e comportamentos tidos e aceitos como normais, por parte das mais puritanas das mulheres de uma igreja comum atual, há cerca de um século, teriam sido considerados levianos, inadmissíveis e dignos de punição. Deus se modernizou? Foi ficando boa praça? Por que hoje é normal e desejável a mulher cristã gozar e ter prazer com o marido e há um século isso era totalmente descabido e imoral?

    Um outro exemplo são as comemorações cristãs. Praticamente todas foram absorvidas do paganismo dominante até Constantino assumir o trono de Roma e declarar-se cristão. Até então, os cristãos eram perseguidos e mortos, mas, mesmo assim, foram crescendo assustadoramente em número. Com o novo imperador, tudo mudou – do nada e através do toque do Espírito Santo, ele se converteu – e tentou-se banir as comemorações pagãs. Mas, a Igreja, de olho em todo o Império, percebeu que teriam problemas locais e que perderiam fiéis. Mudaram as razões e os nomes das festas, mas elas continuaram e ficou tudo certo: “pão e circo”. O Natal é uma delas. Até o século III, em 25 de Dezembro celebrava-se o Sol, que era a maior festa pagã em terras romanas, que depois se tornou a maior dos cristãos. “A Saturnal era uma festa de prazeres desenfreados… A data do Natal foi fixada na mesma época” (M de Beugnot – História, Vol 2, pág 265).” Curioso, não? Conveniência. E assim vai…

    Onde quero chegar? É óbvio que todos queremos ser felizes – acho mais sensato querer ter paz. Mas é muito importante observar as históricas mudanças culturais e entender o contexto em que nos encontramos, a fim de perceber que todos fazemos parte de um processo – evolutivo, em alguns sentidos e, involutivo, em outros – e que determinadas conquistas só ocorrerão nas próximas gerações, assim como já temos as nossas contemporâneas. Dessa forma, cairá a ficha e perceberemos que não existe certo ou errado; existe sim o domínio e controle dos que detêm o poder através da moral ditada e sempre com novas edições revisadas – e do preconceito, coerção ou porrada, quando ela não consegue convencer os críticos e menos subservientes. É covardia tendenciosa, pura ignorância e egoísmo falar em retrocesso das alcançadas conquistas femininas; e isso seria totalmente impossível. Olhemos a história e veremos que vêm ocorrendo importantíssimas conquistas no campo da liberdade individual e que, constante e compreensivelmente, elas exigem avaliações e reajustes. Onde há liberdade, há experimento, reflexão, ajuste, reajuste e o principal: aprendizado. Nesse campo, nosso futuro será bem melhor – se o planeta suportar e permitir. Fazemos parte de um filme e é egoísmo demais só conseguirmos nos perceber em uma foto em que o sorriso não foi congelado na melhor forma e ângulo. As futuras gerações vão sair com sorrisos bem mais belos. O mesmo afirmo sobre o casamento, que nunca mais será o mesmo. Está tudo perdido? Sinal dos tempos? De forma alguma; estamos apenas fazendo profundos ajustes no que era – e continua sendo – uma bela de uma porcaria.

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