4. Por que as mulheres são tão tristes? II

Esse debate conceitual sobre o que seria tristeza, frustação, inquietação, etc, no mundo feminino, que foi incitado pelo artigo da revista Época, chamado “Por que as mulheres são tão tristes?”, é muito rico e subjetivo. Por isso, resolvi criar um post exclusivo para ele, onde farei mais uma abordagem sobre o mesmo.

Gostaria de esclarecer e compartilhar com vocês minhas leituras e percepções acerca de minhas experiências, baseadas em depoimentos femininos e em vivências, a respeito de questões conceituais sobre o que seria uma mulher triste, frustrada, inquieta, etc. Como você viu, esses sentimentos estão sendo muito comentados na matéria da Época, cada pessoa dando um sentido diferente, de acordo com sua visão e grau de consciência. Tratam-se de sensações muito subjetivas, assim como o amor, a felicidade ou qualquer sentimento o é.
Mais uma vez, quero deixar claro que, quando se trata de comportamento humano, não existe verdade absoluta. Sempre será possível existir exceções. Logo, quando expresso TODA ou TODO, refiro-me à maioria que, no entanto, também pode vir a ser TODAS ou TODOS.
Em minha opinião, todos nós, partícipes de diversos grupos sociais, somos seres, de alguma forma, frustrados, pois as inúmeras regras morais, às quais somos obrigados a nos submeter, afastam-nos dos nossos instintos e necessidades naturais, exceto os de comer e beber – englobando todos esses cerceamentos, o maior de todos é o da liberdade. Nesse contexto, considero a mulher ainda bem mais frustrada do que o homem, pois a separação que a sociedade exige que ela mantenha do seu cerne e as cobranças a ela feitas são infinitamente maiores do que no caso dos homens. A aceitação dessa afirmação – assim como o julgamento de sua intensidade, em cada caso – acerca do mundo feminino, por parte de cada leitora, variará de acordo com o seu grau de consciência. E somente a filosofia, a crítica, a análise dos fatos, a busca de respostas e conclusões pensadas tornam uma pessoa consciente. Inseridos na sociedade, compreender a realidade e ter discernimento é para quem o deseja com fervor. Necessita de determinação, pois trata-se de um processo doloroso e que, sem dúvida, afasta-nos dos preestabelecidos modelos de comportamento e, consequentemente, de todos aqueles que contam com o nosso comportamento “normal”.
Mesmo aquelas mulheres possuidoras da plena consciência de suas sexualidades, financeiramente independentes, que pouco estão se importando com o como os parceiros avaliam suas formas de pensar e agir, inclusive essas são frustradas. Porém, são também as inquietas, questionadoras, inconformadas, “siri na lata”. Mas, de forma alguma, considero-as tristes, pois são as lutadoras às quais a Ruth Aquino se referiu. As frustrações delas são decorrentes do batente social imposto à livre expressão e ação da liberdade que suas consciências lhes garantem que deveriam possuir. E muitas destas nem têm como referência a liberdade masculina, mas sim a liberdade de suas próprias almas livres, como vieram ao mundo, sendo logo em seguida castrada.
Essa frustração também é decorrente das poucas ou inexistentes oportunidades que possuem para compartilhar e viver essa filosofia libertária com um parceiro ou até mesmo para trocar idéias e experiências com amigas. Ou seja, são mulheres sozinhas, mergulhadas na e amparadas pela certeza da preciosidade de suas filosofias. Sozinhas sim… solitárias, talvez e possivelmente, às vezes. Percebem-se como MULHERES, sabem a que vieram, o que estão e porque estão fazendo, observam e analisam o mundo à sua volta, decididas a jamais – ou nunca mais – colocar seus livres-arbítrios em risco.
Mais uma vez, não são tristes, pois se percebem guerreiras, sabem que chegaram onde foi possível e têm orgulho de suas conquistas. Mas ainda não desistiram de lutar. Porém, infelizmente, tratam-se de pequena minoria.

Então o que consideraríamos uma mulher triste? Seriam todas as outras que não gostariam de estar onde estão, de estar com quem estão ou de ser o que são – um desses casos ou qualquer combinação entre eles. São aquelas que, por diversas razões, não conseguem se mover em direção às suas essências e, com isso, vivem em eternos conflitos, sejam eles conscientes ou não. São as que necessitam de psicoterapia para tentar entender suas crises existenciais. Seus comportamentos dependem de aprovação e são dependentes das aceitações da sociedade, da família, dos amigos e do macho com quem esteja se relacionando ou prestes a iniciar a relação. Suas formas de agir dependem de aprovações morais e suas dependências pode ser emocionais ou financeiras… ou todas elas podem estar reunidas na mesma pessoa. Sentem-se impotentes para transpor a mais básica barreira cultural. Falta coragem para qualquer tipo de transgressão aos conceitos morais preconizados.
As tristes só ficam sozinhas, por opção, em momentos seguintes às fortes desilusões amorosas. Normalmente, durante esse período, ficam deprimidas, pois “não nasceram para ser sozinhas”. No entanto, não querem mais se machucar. Passam a considerar todo macho um grande idiota insensível que não sabe amar. Para elas, ficar sozinhas, é uma dor terrível.
A mulher triste ama a sensação de amar. A quem? Mero detalhe. “Qualquer um” serve, contanto que também diga que a ama.

Tenho uma linha de raciocínio que me faz enxergar as pessoas em uma escala, onde de um lado temos os instintos, a liberdade, o livre arbítrio, o desapego exagerado às convenções. Do outro, os dogmas, tabus, os modelos de comportamento, as privações, as imposições sociais. Ao meu ver, quanto mais próximo dessa segunda extremidade o ser está, mais conflitos conscientes e inconscientes possui, mais triste ele é. Porém, isso também pode ser muito relativo, dependendo dos valores de cada um. Se uma mulher instintiva e com sua sexualidade bem resolvida se vê privada da liberdade sexual (como é, de fato), mesmo afirmando que se conforma com essa realidade, haverá, no mínimo, frustração em sua alma. Por outro lado, uma esposa e mãe beata que atribui como os únicos valores importantes na vida a família, os filhos, o casamento eterno, a fidelidade, etc, trabalhando sua mente para que se mantenha distante de tudo que é instintivo, inclusive, depois de anos de casamento, abrindo mão do sexo e de sua liberdade, esta dirá que é feliz. E quem poderá provar que ela não é? Cabe a mim filosofar, lançar idéias e expô-las de forma estruturada. Cada uma faça a sua autoavaliação.

Uma definição simplista: As apenas frustradas podem se considerar e demonstrar ser realmente felizes; suas frustrações decorrem do batente cultural para prosseguirem em suas conquistas. As tristes – que também são frustradas – são as insatisfeitas com suas realidades, mas sentem-se impotentes para começar a se mover.

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