No primeiro artigo, falamos bastante sobre a finitude do prazer de se manter ao lado de uma pessoa, em uma relação a dois – heterossexual ou homossexual, sobre liberdade, livre arbítrio, amor romântico, amor verdadeiro, etc. Vários comentários profundos e extremamente conscientes foram feitos.
Para este post, resolvi levantar uma questão que, ao meu ver, é sequencial à anterior. Diante do término do prazer de continuar se relacionando com o(a) companheiro(a) e tomada a decisão pela separação, certamente, alguém será deixado, rejeitado. Gostaria de abordar esses dolorosos sentimentos – a rejeição e a perda – que, comumente, causam nas pessoas longos e fortes sofrimentos, jogam a auto-estima no abismo e provocam frustrações depressivas que as levam, muitas vezes, ao isolamento. Ali, ficam se perguntando, por muito tempo, onde erraram. São sentimentos que fazem parte do “pacote romântico”. São bradados em inúmeros versos e melancolicamente citados nas mais variadas formas de expressões românticas de massa: música, teatro, cinema, telenovelas, livros, etc. Exaltam que esses sofrimentos são inevitáveis e indispensáveis para as nossas trajetórias nesse mundo.
Vale lembrar que, para um melhor entendimento da linha de raciocínio aqui utilizada, é importante a leitura do artigo anterior “Amor infinito?”, assim como dos enriquecedores comentários postados por várias leitoras, referentes ao mesmo.
Gostaria de salientar uma sutil – para mim, nem tanto – diferença entre os sentimentos de perda e o de rejeição, tão comuns aos términos dos relacionamentos e casamentos. Esses termos são aleatoriamente utilizados nas conversas pós-relações. Em minha opinião, são distintos e co-existentes em intensidades diferentes, diante da partida do parceiro, ou podem ocorrer, até mesmo, mais raramente, isoladamente. Acredito que o sentimento de rejeição, na realidade da nossa cultura afetiva, quase sempre, é bem mais forte e real do que o de perda. Vamos falar sobre ambos em dois parágrafos distintos, para melhor entendimento.
Considero o real sentimento de perda inerente às relações autênticas, onde existem o já explicado e discutido amor verdadeiro, liberdade, essências assumidas, mútuos e autoconhecimentos, respeito pelas individualidades, etc. Diante do real conhecimento do eu do parceiro que se vai, instala-se a real sensação de perda, pois quem fica tem total ciência das admiradas – ou não – características que com ele se vão. Com a sua partida, quem fica se vê privado do real prazer de ter ao lado alguém que o respeita e a quem admira. Acredito que até possa existir algum sentimento de rejeição, mas ele será em bem menor intensidade do que normalmente observamos, e deixará também bem menor seqüela emocional, quando comparado com o que ocorre nas relações românticas. Da parte de quem fica, essa consciência é impulsionada pelo respeito ao direito de escolha e pela não existência do sentimento de posse. Apesar da tristeza e saudade, seu “self” fica praticamente inabalado, pois se conhece o suficiente para que o vazio romântico não se instale. Como já comentado, não há espaço para mágoas, rancores, raivas ou vinganças, quando findas essas relações.
Abrindo um parêntesis para analisar a decisão pela “partida”, gostaria de esclarecer que, quando alguém resolve ir embora, duas razões podem existir para tal escolha: ou a pessoa, simplesmente, decide trocar a relação pela liberdade, não havendo outro relacionamento a ser alvejado, ou ela opta por outra pessoa possuidora de características que, naquele momento de sua vida, mais se adequam e se encaixam em suas ansiedades e necessidades. Não faz sentido algum comparações e perguntas como “o que ele(a) tem que eu não tenho?”. Quando o tolo romântico mergulha nesses questionamentos, sua auto-estima – que nunca foi sólida, é ainda mais saqueada, devido ao não encontro das respostas, pois elas não existem. É uma tolice querer avaliar quem seria melhor ou pior. Até mesmo, como simples exemplo, os traficantes de drogas e o seu staff , com seus poderes coercitivos e atitudes violentas, exercem atração e são desejados, tanto por mulheres da comunidade em que vivem quanto por muitas do asfalto, de classe média. Somente a busca do conhecimento do self dá a uma pessoa a segurança e auto-estima necessárias para compreender a dinâmica dessas escolhas, evitando, assim, que se sinta rejeitada.
Dessa forma, o sentimento de rejeição age profunda e negativamente no ego dos que não compreendem lucidamente o que, na verdade, rege as relações a dois. Os românticos amam estar apaixonados e vêem os parceiros com lentes que distorcem suas realidades, fora aquelas que já não são assumidas pelos mesmos. Eles nunca param para se dedicar ao autoconhecimento porque fogem das verdades e não querem ir de encontro às convenções comportamentais. Logo, diante da partida do outro, o que sobra? Um vazio que, durante a relação era “preenchido” pelas mútuas declarações de “eu te amo” e pela segurança da relação estável. Consolidada a decisão pela separação, começa a restabelecer o vazio anterior e, certamente, já existente, antes do início do romance. O sentimento de rejeição, por parte daquele que não concorda com o fim do relacionamento, dele toma conta. Então, várias reações podem ocorrer, variando entre homens e mulheres, sendo a grande maioria delas já conhecidas por todos nós. Podem variar de uma leve depressão psíquica até violências físicas e homicídios.
Visto o sentimento de rejeição, podemos dizer que, nas relações com bases românticas, o sentimento de perda também existe. Porém, como há uma grande e inconsciente confusão entre o amor pela inebriante sensação de se estar amando e o quanto amamos a persona em atuação no parceiro ou o personagem que nele queremos criamos, lanço uma questão: amarguramos a perda do Homem ou da Mulher, com todas as suas qualidades e características verdadeiramente conhecidas, em termos de essência, ou choramos a partida do grande amor necessário à nossa plenitude romântica, já imaginando o trabalho que teremos e a grande espera que ocorrerá, durante a busca de um novo romance? Nesse caso, por serem bastante óbvias, nem comentarei as perdas financeiras e materiais que provocariam alterações nos estilos de vida de cada um.
Considero esse assunto bem interessante e não pretendo esgotá-lo nesse post, para que não se torne muito extenso. Aguardem a continuação em Rejeição e Perda II. Já temos bastante o que conversar. Abraços.

