Iremos, neste artigo, falar de adjetivos que invadem o imaginário das pessoas e que são muito expressos em rodas de conversas: o ser sedutor ou ser sensual. Muitos – acredito que todos – desejariam ser considerados pessoas sedutoras; que em seus ambientes de trabalho e nos diversos meios sociais, percebecem-se observados, admirados, invejados e desejados. Mesmo a mais convicta fiel e romântica, nem que seja apenas para ter o seu ego massageado, sonha com isso.
Irei defender a idéia de que uma pessoa que age segundo os preestabelecidos comportamentos românticos jamais será uma pessoa sedutora… e vice-versa.
No entanto, antes, vamos tentar sanar uma dúvida conceitual que provoca muita confusão: ser sensual e ser sedutor são expressões usadas indiscriminadamente. Porém, em minha opinião, possuem significados bem distintos, ainda que incompreendidos pelo pensamento romântico.
Eu diria que alguém não é sensual; ele está sensual. Uma outra pessoa não está sedutora; ela é sedutora. No primeiro caso, temos uma fotografia onde o que enxergamos é o apelo sexual estético momentâneo: uma roupa decotada, uma dança, a forma de andar, um corte de cabelo, unhas, maquiagem, a produção. No segundo, um filme longa-metragem em que aspectos comportamentais são observados e, muitas das vezes, inconscientemente admirados, mesmo que julgados e criticados. Neste caso, dias a meses podem se passar para que concluamos que alguém é sedutor. Este adjetivo, ao contrário do primeiro, não está atrelado à beleza física, mas sim ao comportamento – apesar de não podermos negar que ser belo, em nossa sociedade, é sempre algo bem-vindo.
Vamos, a partir de agora, esquecer a mulher ou homem sensuais, pois, hoje podem estar… amanhã, não. Os sedutores nunca o deixam de ser e deles agora iremos falar.
Somos animais. Várias expressões adjetivas e adjetivos podem ser complementados: racionais, sociáveis, que pensam, que amam, etc. Porém, não deixamos, nem por isso, de ser animais. Todos carregamos em nossas veias, em formas mais leves ou de mais pesados fardos, conhecidos ou completamente ignorados, os nossos instintos naturais. Mesmo que insistamos em fugir deles e os desconheçamos em nós mesmos, fácil e, muitas das vezes, inconscientemente, eles são por nós identificados em outra pessoa e vice-versa.
Claro que, vivendo em sociedade, ninguém consegue ser inteiramente instintivo. No entanto, quando falamos de sexualidade, do comportamento, da filosofia de vida, quanto mais próxima uma pessoa se encontra dos seus instintos, por mais que choque as convenções, mais ela se torna atraente, não apenas ao sexo oposto como aos seus próprios pares de gênero. Normalmente, dizem que se trata de “objeto de estudo”. Esse é o ser autêntico: aquele que não nega a que veio, o que quer, do que gosta, suas escolhas e preferências, suas exigências por respeito ao seu espaço, etc. Ele não se importa muito com os modelos de comportamento e com as críticas ou elogios e estes o afetam da mesma forma: nada ou pouco. Este é o ser sedutor, que seduz pelo seu comportamento natural, muitas das vezes sem premeditação de seus atos. Mais uma vez, trata-se da adoção de uma filosofia de vida, o máximo possível, liberta dos preconceitos, convenções, dogmas e tabus.
Por pouco se importar com modelos preestabelecidos de comportamento, torna-se uma pessoa incomum, imprevisível, com identidade própria, como qualquer animal silvestre o é. Sua forma de viver e de se relacionar com as pessoas é leve. Apesar de prejulgado e criticado, ele chega a ser ingênuo, por tão próximo estar da natureza. Porém, todos sabemos que a incerteza, a imprevisibilidade, são ingredientes indispensáveis a uma relação para que ela seja recheada de sedução.
Ainda acharei um termo melhor para esse tipo de comportamento mais próximo da natureza. Acredito que “sedutor” não é bem adequado, pois ele nos traz a idéia de agente, da intenção planejada de seduzir, quando, na verdade, trata-se apenas de uma consequência de suas atitudes. Com o tempo ele, de fato, pode se tornar consciente de seu poder, ao observar as reações dos que o rodeiam. Mas começou a assim agir sem antes refletir. Até mesmo porque as reações em seus meios sociais são mais de julgamentos e críticas do que de elogios. Mesmo assim, atrai atenções e é desejado, apesar de assustar a muitos devido à sua estranha filosofia de vida – no caso da mulher, principalmente.
Onde entra o romântico nesse artigo? Em maior ou menor grau, ele é o oposto. O que é mais desestimulante do que a constante previsibilidade em alguém? Em termos de relacionamentos a dois, o que é mais previsível do que uma pessoa romântica?
Mais uma vez, ressalto que não ser romântico não significa ser frio, calculista, ausente de gentilezas e expressões carinhosas, desatencioso para com o outro, etc. Apenas associo o romantismo a qualquer comportamento preconizado e esperado por toda a sociedade, podendo ser entre homem e mulher, amigos, gays, pais e filhos, etc. Ou seja, age-se romanticamente quando fielmente seguir os modelos comportamentais é mais importante do que encarar as verdades nuas e cruas e considerar o real bem-estar alheio.
Os casais insistem em buscas e atitudes românticas, desejando atrair o parceiro, quando, na verdade, com isso, tornam-se, de fato, seres completamente desinteressantes, apesar da conveniência romântica que promete a segurança relacional. Essa falsa segurança não nos faz feliz por não sermos seres que, instintivamente, deseja-a. Naturalmente, todos queremos ser livres e topar com imprevisibilidades. Isso nos excita. Esse é o grande conflito que dá um grande nó nas cabeças românticas e tanto as fazem sofrer. Aprendem que somente sendo românticas serão felizes quando desejam, em suas inconscientes essências, a imprevisibilidade proporcionada pela liberdade… então adoecem.
Vamos à prática?
Em meus estudos, experiências, observações, conversas e depoimentos, conheci inúmeras mulheres românticas e poucas e facilmente numerável mulheres com filosofias de vida próximas da autenticidade, ou seja, sedutoras. As primeiras reclamam que fizeram e fazem enorme esforço para ter e manter um relacionamento, um namorado, passando longos períodos sozinhas mesmo depois de terem se doado no início de uma possível relação – logo depois de alguns encontros sexuais o cobiçado “as abandona”. Vivem reclamando que os homens nada sério querem… apenas sexo. Todo relacionamento é fugaz, decepcionante, raramente não deixa mágoas e quase sempre termina porque mentiras foram descobertas. Mas elas não desistem da busca do príncipe. Nelas, a melancolia e desilusão sempre foram traços marcantes.
Como uma mulher que se autointitula carente, meiga, sozinha, solitária, anjinha, doce, etc, pode querer ser uma fêmea autenticamente sedutora? É impossível! HOMENS se sentem verdadeiramente seduzidos por MULHERES, e vice-versa, e não por imitações de personagens de romances. Mas que pouquíssimos homens estão prontos para lidar com mulheres de verdade, isso também é fato incontestável.
Nas autênticas, que menos se importam com o que a sociedade delas espera, percebi relacionamentos bem longos, mesmo que não socialmente assumidos. Seus parceiros não deixaram de as desejar, apesar de, devido ao machismo, assustarem-se com suas atitudes e estas neles causar inseguranças – conflitos fáceis de serem compreendidos nas cabeças dos homens. Nestas, são notórios o maior prazer de viver e a felicidade, mesmo tendo que suportar o peso dos julgamentos da sociedade e os esparsos momentos de solidão – que afirmam não têr o mesmo sentido da solidão romântica.
Nos dois casos, eu não tenho dúvida de que ambas gostariam de encontrar um parceiro que satisfizesse suas diferentes ansiedades. Porém, a diferença gritante é que a romântica é triste e passa longos períodos sem sexo e, muitas das vezes, quando o tem, sente-se insegura e usada. A outra, sempre o tem e, normalmente, com qualidade, pois pode escolher – enquanto a primeira espera ser escolhida – e não se sente objeto de homem algum.
Uma importante questão que não pode deixar de ser mencionada é a instalação do que chamo de “sensação de ameaça” em quem se sente atraído pela pessoa sedutora. Porém, tal sentimento não é admitido no romantismo, que carrega a bandeira da fidelidade, segurança e estabilidade da relação. Então, apesar de desejá-lo, o romântico se sente assustado e tende a se afastar daquele que conhece e assume a sua natureza. Por isso, os sedutores tendem a ficar longos períodos sem “namorados”. A sensação de ameaça será comentada e esmiuçada em outro, talvez próximo artigo. Particularmente, vejo-a como algo saudável e necessário aos relacionamentos.
Conclusão a ser debatida nesse post: os seres românticos, apesar de convenientes pela falsa segurança que proporcionam ao parceiro, com o tempo, tornam-se desinteressantes aos próprios românticos e muito mais aos autênticos. Eles jamais serão verdadeiramente sedutores, pois não possuem identidades próprias. Todos são iguais, com discursos, medos, crenças, cobranças e falsas verdades idênticas que nunca são comprovadas. Se todos são iguais e previsíveis, a única coisa que os diferencia é a novidade no sexo… que logo deixa de ser novidade.
Mais uma vez, sugiro a leitura do “Mito da Caverna”, de Platão, que é uma parábola que se encontra no livro “A República”. Segue um link para o texto. Ele é curto e extremamente interessante.

