Fiz um apanhado de trechos do livro Mulheres que Correm com Lobos, da Clarissa Pinkola Estés, e montei um quebra-cabeça com algumas adaptações minhas para termos um raciocínio lógico. Esse foi um comentário que fiz no último artigo e resolvi transformá-lo em post, pois acredito ser bem rico em termos de reflexões. Trouxe para cá também os comentários da Thais e da Paulinha.
“Para conquistar o coração de uma Mulher Selvagem, seu parceiro deve entender profundamente sua dualidade natural, as duas poderosas forças femininas que existem em uma única mulher: a Selvagem e a que precisa vestir-se de personas.
Qualquer um que seja íntimo de uma Mulher Selvagem está de fato na presença de duas mulheres: um ser exterior e uma criatura interior, um que habita o mundo terreno, e o outro que vive num mundo não tão visível. O ser exterior vive à luz do dia e é observado com facilidade. Já a criatura costuma chegar à superfície vindo de muito longe e, com freqüência, aparece e desaparece rapidamente, embora sempre deixe uma sensação: algo de surpreendente, original e sagaz.
O esforço de compreender essa natureza dual das mulheres, às vezes faz com que os homens – e até mesmo elas próprias, fechem os olhos e bradem aos céus em busca de ajuda. Trata-se do famoso e misterioso mundo feminino. O paradoxo da natureza gêmea das mulheres reside no fato de que, quando um lado está mais frio sentimentalmente, o outro lado está mais quente. Quando um lado é menos apressado e mais rico em termos relacionais, o outro pode ser até certo ponto gélido. Muitas vezes um lado é mais feliz e maleável, enquanto o outro sente um anseio por “não sei bem o quê”. Um lado pode ser cheio de alegria, enquanto o outro é lamentoso e melancólico. Essas “duas-mulheres-que-são-uma” são elementos separados, porém, associados, que se combinam em milhares de formas.
Embora cada lado da natureza de uma mulher represente uma entidade separada, com funções diferentes e capacidade de discernimento, eles devem, à semelhança do cérebro com seu corpus callosum, ter um conhecimento ou uma tradução um do outro e, portanto, funcionar como um todo. Se a mulher esconde um dos lados ou privilegia um deles em demasia, ela tem uma vida desequilibrada que não lhe permite acesso ao seu pleno poder. Isso não é bom, podendo levar ao adoecimento psíquico. É necessário desenvolver os dois lados.
Quando se ignora a natureza selvagem da mulher e a julgamos pelo que ela aparenta ser, pode-se vir a ter uma grande surpresa, pois, quando a natureza primitiva da mulher emerge das profundezas e começa a se afirmar, é freqüente que ela tenha interesses, sentimentos e idéias muito diferentes dos que manifestava antes.
Quando a mulher consulta sua própria natureza dual, ela está cumprindo o processo de olhar, examinar e sondar o material que está para além do consciente, sendo, portanto, muitas vezes surpreendente no seu conteúdo e no seu tratamento, e quase sempre de imenso valor.
Para amar uma mulher, o parceiro deve também amar sua natureza primitiva. Se a mulher aceitar um companheiro que não possa amar ou que não ame esse seu outro lado, ela sem dúvida acabará arrasada sob algum aspecto e deixada a vaguear cambaleante, em desmazelo.
Portanto, o homem precisa ter a sensibilidade para identificar a natureza dual feminina. O amante mais querido, o pai mais valorizado, o amigo ou “homem selvagem” mais valioso é aquele que deseja aprender. Quem não se delicia com o aprendizado, quem não é atraído por novas idéias ou experiências, não conseguirá passar do marco de estrada junto ao qual está descansando agora. Se existe uma força que alimenta a raiz da dor, ela é a recusa a aprender além do momento presente.
Sabemos que a criatura Homem Selvagem está à procura da sua própria mulher terrena. Com medo ou não, é um ato de profundo amor o de se permitir ser perturbado pela alma primitiva dos outros. Num mundo em que os seres humanos têm tanto medo da “perda”, existe um excesso de muralhas protetoras contra o mergulho na numinosidade de outra alma humana.
O companheiro certo para a Mulher Selvagem é aquele que tem uma profunda tenacidade e resistência de alma, aquele que sabe mandar sua própria natureza instintiva ir espiar a alma de uma mulher e compreender o tudo que vir e ouvir. O bom partido é o homem que insiste em voltar para tentar entender, é o que não se deixa dissuadir.
A tarefa primitiva do homem consiste em explorar e admirar a alma selvagem feminina para captar e compreender a substância numinosa de que ela é feita, para deixar que ela o inunde, o surpreenda, o espante e até mesmo o assuste. Com isso os olhos dela brilharão. E os dele também.
A mulher deve escolher seus amigos e companheiros com prudência. No caso dos companheiros, costumamos investi-los com o poder de um grande mago – de um mágico fantástico. É fácil que isso aconteça, pois, se realmente conquistamos a intimidade, é como se estivéssemos abrindo um ateliê de cristal, um lugar mágico, ou pelo menos é o que nos parece. Um companheiro escolhido sem critérios pode gerar e/ou destruir até mesmo nossos vínculos mais duradouros com nossos próprios ciclos e idéias. O companheiro destrutivo deve ser evitado.
Ter um companheiro e amigos que a considere como uma criatura viva e em crescimento, um verdadeiro ser que vive e respira, que é humano mas também composto de elementos delicados, úmidos e mágicos … um companheiro e amigos que apóiem a criatura que existe em você … são essas as pessoas por quem por quem a mulher procura. Elas serão amigas da sua alma pela vida afora. A escolha criteriosa de amigos e companheiros, para não falar nos mestres, é de importância crítica para continuar consciente, para continuar intuitiva, para manter o controle sobre a luz incandescente que vê e sabe.
A forma de manter o nosso vínculo com o lado selvagem consiste em nos perguntarmos exatamente o que desejamos. Essa pergunta é a que separa a semente do estrume. Um dos discernimentos mais importantes que podemos fazer, nesse sentido, é o da diferença entre o que acena para nós, de fora, e o que nos chama, do fundo da nossa alma.”
Talvez aqui não estejam as respostas para todos os questionamentos femininos. Mas, boa parte delas são abordadas.
E vocês, mulheres? O que realmente desejam?

