Estamos retomando o artigo Rejeição e Perda II, pois ele havia ficado em aberto para que fosse por mim completado após ler alguns comentários de vocês. Os já escritos foram trazidos para cá. Iremos, agora, “concluí-lo” – entre aspas porque os assuntos dos quais tratamos nunca serão encerrados em um artigo apenas, pois sempre acabarão permeando os sequentes. Vamos a ele.
Em Rejeição e Perda I, conversamos bastante sobre os sentimentos de perda e de rejeição que se instalam, em uma separação, naquele que é deixado e que não optou pela ruptura da relação. Após tantos comentários inteligentes, creio ter ficado claro – pelo menos na teoria – que, quanto menor o autoconhecimento, autoestima e amor-próprio, quanto mais turva é a consciência em relação ao seu EU e ao seu valor como um ser que nasceu para ser livre e pleno, mesmo sozinho, maior será o sentimento de rejeição.
Agora, abordarei um assunto que trata das diferentes formas que essas sensações são vividas pelos homens e pelas mulheres, durante as separações.
É fato que, na grande maioria das vezes, a mulher é quem toma a iniciativa do pedido de separação. Por quê? Trata-se de paradoxal confronto dessa estatística com o romantismo feminino ou este, simplesmente, é a causa? Ou seja, essa recorrência é real “apesar” de a mulher ser mais romântica ou, exatamente, “devido ao fato” de o ser? Quais os motivos que levam a também grande maioria dos homens a não aceitar e não concordar com o rompimento do casamento, valendo-se de todas as armas possíveis – chantagens emocionais, agressões morais, retaliações financeiras, ameaças físicas e violência – para tentar convencer a esposa a mudar de ideia?
Respondendo ao questionamento acima, a grande desproporção entre os pedidos de separação de esposas e maridos é, exatamente, porque aquelas mais acreditam – e, na maioria das vezes, somente elas caem nessa armadilha – no casamento eterno e feliz, na família perfeita que vemos nas publicidades de planos de saúde e seguros de vida, filmes, novelas, romances em mídia impressa – essas dezenas de revistas direcionadas ao público feminino adolescente que infestam as bancas de jornais e se multiplicam como ratos, nas propagandas que querem vender seus produtos no Dia dos Namorados, Dia das Mães, Natal, etc. Elas se projetam naquelas fotos, cenas e histórias. “Chegar a minha vez é questão de tempo”. Resumindo: o príncipe existe e ponto final!!
Acompanhem esse pequeno trecho do excelente livro “Mulheres que Correm com Lobos – Mitos e histórias do arquétipo da Mulher Selvagem”, pág. 15 e 16, da psicóloga junguiana Clarissa Pinkola Estés:
“A fauna silvestre e a Mulher Selvagem são espécies em risco de extinção.
Observamos, ao longo dos séculos, a pilhagem, a redução do espaço e o esmagamento da natureza instintiva feminina. Durante longos períodos, ela foi mal gerida, à semelhança da fauna silvestre e das florestas virgens. Há alguns milênios, sempre que viramos as costas, ela é relegada às regiões mais pobres da psique. As terras espirituais da Mulher Selvagem, durante o curso da história, foram saqueadas ou queimadas, com seus refúgios destruídos e seus ciclos naturais transformados à força em ritmos artificiais para agradar aos outros…”
“Os lobos e as mulheres foram perseguidos e acossados, sendo-lhes falsamente atribuídos o fato de serem trapaceiros e vorazes, excessivamente agressivos e de terem menor valor do que seus detratores. Foram alvos daqueles que preferiam arrasar as matas virgens, bem como os arredores selvagens da psique, erradicando o que fosse instintivo, sem deixar que dela restasse nenhum sinal. A atividade predatória contra os lobos e as mulheres, por parte daqueles que não os compreendem, é de uma semelhança surpreendente.”
“Todas nós temos anseio pelo que é selvagem. Existem poucos antídotos aceitos por nossa cultura para esse desejo ardente. Ensinaram-nos a ter vergonha desse tipo de aspiração. Deixamos crescer o cabelo e o usamos para esconder nossos sentimentos. No entanto, o espectro da Mulher Selvagem ainda nos espreita de dia e de noite. Não importa onde estejamos, a sombra que corre atrás de nós tem decididamente quatro patas.”
Creio que não há muito mais o que acrescentar a esses trechos que mais me soam como um extraordinário esclarecimento criado através da filosofia emanada de uma brilhante consciência, da terra, madeira, água, ar, do sangue animal que corre nas veias… através de sábias palavras.
Saqueados e castrados os instintos femininos, criou-se um grande buraco no EU, no self da mulher. Interessantemente, fazem-na acreditar que o amor romântico, a “metade de uma laranja” ou a “sua cara-metade” e a maternidade se encaixariam perfeitamente nessa fenda, tomando o lugar da liberdade que lhe foi roubada. Isso vem ocorrendo há, pelo menos, cinco milênios, e o livro já mencionado por mim, “A Cama na Varanda”, de Regina Navarro Lins, explica muito bem esse processo predatório.
Todos acham normal a facilidade com que a mulher chora. As que se emocionam até com filme dos Simpsons entram nas categorias meiga, doce, “manteiga derretida”, “para casar”. Todos rimos e achamos naturalmente inerentes à ela sua dependência do macho, seus medos e inseguranças. Qualquer uma que destoe e seja mais instintiva, que saiba se defender e se impor, é rotulada de “a que age como homem”. O medo nada tem a ver com o gênero feminino do ser humano… ele tem sido propositalmente alimentado através de milênios de manipulação e opressão… até que passou a ser considerado idiossincrasia feminina. Somente a fêmea homo sapiens tem esse comportamento passivo e – por que não? – covarde. Em nenhuma outra espécie essa disparidade reacional entre os gêneros ocorre. O instinto materno, de forma alguma, serve para isso justificar. Porém, ela seria perfeita para casar, aprovada pelos pais e avôs. Por que será?
Então ela parte para o sonhado casamento. Com o passar de poucos anos, percebe que a metade da laranja fica passada, não lhe oferece mais suco algum e que a cara-metade não passou de um mascarado de um baile à fantasia. Porém, a mulher tem plena consciência de que também sempre usou uma fantasia. O grande equívoco de muitas é se iludir com a ideia de que ambos permanecerão eternamente com as máscaras e com elas irão para os caixões com os mesmos sorrisos do baile em que se conheceram. “Felizes para sempre”. Gradualmente, as duas máscaras começam a cair e não é muito agradável o que começa a surgir no espelho… muito menos nele. Daí em diante, sem cara-metade, sem instintos, sem liberdade e sem perspectiva de se ver em condições de resolver o problema, a não ser dando a si mesma outra chance… começa a pensar na separação. Diante do desamor, sua coluna estrutural psíquica começa a ruir e a fenda volta, aos poucos, a se abrir. Então, passa a focar e sufocar os filhos, precisando, desesperadamente, da manutenção de algum eco para a sua necessidade de se sentir amada, da dependência da sensação de “amar estar amando”, não importa a quem. Mas isso não resolve. Quanto maior a expectativa, quanto mais se é enganado e/ou se deixa enganar, maior é a frustração, decepção.
Quando conseguem romper a relação, aquelas que alcançam algum grau de lucidez ficam seletivas, pensativas, introspectivas e, consequentemente, bons períodos sozinhas… algumas, para sempre. Para as outras, é declarada mais uma temporada de caça ao príncipe.
Se a sensação de desengano é algo bem comum na maioria das mulheres, as reações entre elas são bem distintas. Há aquelas poucas que, assim que se percebem infelizes, rompem a relação; as que, diante de suas dependências financeiras, preparam-se para conseguir seus próprios sustentos, só comunicando aos parceiros as suas decisões ao se verem independentes – quando concluem suas faculdades e conseguem um emprego, por exemplo; as que já estão prontas e se decidiram pela separação, porém, para terem uma boa justificativa, diante da família e amigos, colocam-se “à espreita”, aguardando surpreender o marido em um flagrante de traição; existem aquelas às quais realmente falta coragem para qualquer tipo de movimento em direção à liberdade, por terem medo dela, assim como dos julgamentos da família e filhos, independentemente da realidade da independência financeira; e existem aquelas – MUITAS – que não pretendem, absolutamente, separar-se, por ser o casamento e o machismo menos incômodo do que ter que pensar em ganhar a vida sozinhas.
De forma alguma, podemos deixar de considerar as exceções, que são as que acreditam no romantismo e se encontram satisfeitas com o que ele lhes têm oferecido, durante anos de casamento. Como e quem vai duvidar? Somente elas podem saber… ou não.
Do lado masculino, a coisa é bem diferente. A maioria continua tendo quatro patas – e isso não é crítica… concordo com que devamos ter mesmo. Claro que se adaptaram bem à monogamia social – nunca à sexual, no entanto, seus instintos não foram aniquilados. Falam alto, são agressivos, defendem-se, brigam, são dominadores, trepam, fodem, urinam em pé e nos postes e árvores, marcam território, não têm medo de escuro, de barata, de sair sozinho, de ser chamado de galinha, etc. Porém, possuem um destacado medo, muito maior do que todos os outros que possam, também, carregar: o de ser “corno”, “chifrudo” e de ser abandonado pela fêmea, pois isso compromete totalmente sua masculinidade, caindo-lhes das mãos a bússola com seu ponteiro fálico emperrado no norte do egoísmo dominador machista que sempre conduziu sua vida e de toda a nossa sociedade. Sentem-se perdidos. “Separação por quê, se eu continuo tendo quatro patas? Não vejo problema algum no nosso casamento. Você precisa de tratamento psicológico!”
O falocentrismo – o “pau” como o centro de nossa cultura comportamental ocidental – é tão cultuado que, diante da decisão da mulher pela separação, a primeira coisa que vem à mente de muitos conhecidos machos é que o marido não é bom de cama. Na mente do “abandonado”, sua grande preocupação é transparecer, comentarem que, de alguma forma, ela falhou como macho. Obs: só mencionarei pênis quando eu me referir ao sexo com intuito de procriação… sexo objetivando o prazer é feito com pau mesmo.
Agora, ele terá que encontrar outra que “o compreenda”, como a que está querendo partir o fez por tantos anos… e isso o apavora – mal sabia ou não queria ele saber das frustrações, tristezas, pensamentos e desejos de bastidores? E as pensões dos filhos, divisão dos bens, explicações aos amigos? “Claro que ela já tem um amante!!”
As conseqüências da indignação masculina? Após as negativas à separação e várias ameaças, algumas respostas serão encontradas nos livros de registros das Delegacias de Mulheres – onde estas existirem, com os juízes decidindo as litigiosas divisões dos bens, nas manipulações contábeis para haver a menor perda de renda e patrimonial possível e, no caso das famílias mais abastadas em que os pedidos de separação não logram sucesso, também nos consultórios de psicoterapia e psiquiátricos, cujos principais pacientes são do sexo feminino que procuram os especialistas para dividir seus medos, culpas e impotências.
Na maioria das vezes, quando o homem decide sozinho pela separação? Quando já possui uma substituta para a atual esposa. Dificilmente ele se separa para ficar sozinho. Nesse caso, percebam que a mulher rejeitada, abandonada, tem a sensação de perder alguém, mas não sabe o que realmente foi perdido… ou seja, é mais sentimento de rejeição do que de perda. Notem, também, a particularidade de que, quanto mais no pico da pirâmide social a família se encontre, mais, não apenas o homem, o casal é tolerante com o relacionamento falido: a voz do patrimônio. Mas quando ele realmente opta pelo fim da relação, muitas das vezes ocorre com a mulher o que podemos ler nos casos relatados no link abaixo, sobre a Vera, Celina e Carmen, por exemplo. Discordo das origens dos sentimentos apresentadas pela psicanalista, mas vale a pena ler o artigo, como curiosidade e para traçado de possíveis semelhanças:
www.fundamentalpsychopathology.org/anais2006/4.14.3.2.htm
Assim funciona o “amor” romântico: as separações, realmente, são dolorosas, mas, raramente percebem-se perdas nobres reais, pois a nobreza da verdade foi relegada, desde o primeiro encontro, anos atrás. Predomina o sentimento de rejeição.
Sobre a distribuição justa das culpas, já conversamos sobre isso. De forma alguma, os homens são isoladamente culpados. Além dessa ressalva, também já conversamos sobre o fato de que, caso houvesse uma consulta popular visando a uma possível mudança dessa realidade, muitas mulheres votariam pela manutenção da cultura machista. “Ela incomoda mas é extremamente cômoda!”

