No dia vinte e quatro de Dezembro de 2009, quando saí do meu apartamento para passar a noite de Natal com minha ex-esposa, de quem estou separado há cerca de seis meses, parte de nossas famílias e vários amigos, na mesma casa em que morávamos, eu não imaginava que essa noite fosse gerar um artigo.
Estive com essa maravilhosa mulher por cerca de oito anos. Dois namorando e seis casados. Com cerca de dois anos após o casamento, começamos a criar aberturas para falar sobre assuntos normalmente não abordados entre os casais, a respeito de liberdade e das sexualidades de cada um, dando início, gradualmente, a uma deliciosa fase em que fomos nos tornando, aos poucos, mais autênticos e amigos. Conversávamos muito e começamos a ser cada vez mais íntimos e cúmplices. Porém, mesmo antes dessa fase, já éramos um casal diferente, com muitos respeitos mútuos às individualidades de cada um. Dentro das restrições impostas por um casamento tradicional, o nosso não era nada sufocante.
Nessa nova fase, à medida que íamos conversando e nos permitindo experimentar novas experiências juntos, eu comecei a observar com maior atenção o meu casamento e os de todos os meus amigos. Entrei na fase da filosofia, do repensar modelos.
Há cerca de um ano, decidi escrever um livro sobre tudo o que eu estava sentindo, observando, aprendendo e concluindo sobre os relacionamentos, liberdade e a sexualidade em geral, com foco na feminina. Tudo que eu escrevia era oferecido para que minha então esposa lesse, a fim de que pudéssemos conversar sobre polêmicas questões. Nada era escondido dela. Foi e continua sendo nessa fase de pensador desses assuntos que eu mais me conheci, assim como à outra, e cresci. O salto foi monumental. Porém, eu percebia que as minhas reflexões sobre a liberdade, assim como meus questionamentos e críticas acerca das mentiras românticas que os casais são “obrigados” a viver estavam deixando-a apreensiva. Mesmo assim, tudo era compartilhado com ela.
Logo no início, eu enviava trechos do livro para que algumas amigas minhas os lessem, a fim de que eu tivesse um retorno sobre a legitimidade do que escrevia a respeito dos relacionamentos e da mulher. Duas dessas amigas foram a mãe e uma tia de minha esposa. Mulheres inteligentes e lúcidas, para minha alegria, ambas “aplaudiram” as idéias contidas nos escritos. Lembro-me de algumas vezes que elas me abraçaram, emocionadas, agradecendo por estar proporcionando tanta alegria, como marido, à filha e sobrinha. Sempre fui muito franco com as duas, não as tratando com o conhecido e formal respeito pelas senhoras. Tratava-as como mulheres e elas adoravam. Quando os quatro juntos, conversávamos e brincávamos sobre tudo, abertamente e sem pudores.
Nessa história, não posso deixar de citar o meu cunhado, seu irmão. Sempre que podíamos, conversávamos muito sobre sexo e relacionamentos, quando eu não deixava de expor minhas verdadeiras opiniões.
À medida que eu refletia e escrevia, o processo de extirpação das mentiras em meu casamento foi se acelerando e se tornando mais intenso. Cada vez mais eu desejava ser livre e somente viver relacionamentos baseados em verdades. Depois de alguns meses, resolvi pedir a separação. Sem dúvida, já havíamos avançado muito, em direção aos respeitos mútuos. Porém, existia uma barrreira que parecia intransponível: a antiga relação romântica.
Conversei muito com ela, deixando bem claro que ela não tinha culpa alguma pela minha escolha, assim como o porquê de eu estar fazendo aquilo: eu apenas queria ser livre e não havia nenhuma outra mulher envolvida na minha decisão. Sem dúvida alguma, as reflexões e conclusões que eu lançava no livro foram a principal causa de minha separação, afinal, buscar respostas, filosofar e concluir criticamente, se seguidos de coragem, mudam comportamentos e nos tornam outras pessoas.
Porém, nosso casamento era, sem dúvida alguma, invejado, sendo a sua postura como esposa sempre elogiada por, sem exagero, todos os meus amigos. Não era nada incomum eu ouvir algo parecido com “quem dera eu ter uma esposa como a sua”.
Apesar de que muito menos para ela, não foi nada fácil para mim vê-la sofrer com a minha escolha. No entanto, ela vinha acompanhando toda transformação que estava ocorrendo comigo e sabia exatamente o que e por quais razões aquilo estava ocorrendo. Para ela, a surpresa não foi tão grande, pois percebia o crescimento da minha inquietação. Nossa separação foi à base de conversas, não havendo qualquer tipo de discussão. Saí de casa e fui morar sozinho. Mantive, durante esses meses, contato com ela. Conversávamos normalmente. Porém, desde então, não fiz contato algum com sua mãe, tia e com o irmão.
Vamos, agora, à noite de Natal. Ela, algumas semanas antes, perguntou-me se eu passaria o Natal em sua companhia, com nossos familiares e amigos, pois iria, como nos anos anteriores, organizar a mesma festa em nossa casa. Prontamente, eu disse sim.
Cheguei bem mais cedo para ajudá-la em alguns detalhes. Eu estava um pouco apreensivo para saber como eu seria tratado pelos três já citados. Ficava o tempo todo lembrando dos agradecimentos da mãe e da tia por eu “estar fazendo a minha esposa tão feliz”. E naquela noite? O que eu ouviria?
Amigos e parentes foram chegando. Os três chegaram. A mãe, quando me viu, enquanto me dava um apertado e demorado abraço, falou ao meu ouvido, visivelmente emocionada: “Te amo muito”. A tia, logo depois, como se tivessem combinado, disse: “Você não faz ideia do quanto eu te amo e te admiro”. É impossível descrever o que senti naquele momento. O irmão, ainda de longe, repetiu, gritando, o costumeiro cumprimento: “Fala, corno! Tudo bem?”. Então, também me deu um abraço. A noite transcorreu como todas as outras. Havia muita alegria. Obviamente, sei que, da parte dela, algo estava faltando. No entanto, fui normalmente tratado, como se nada tivesse acontecido.
Dormi lá mesmo. No dia 25, acordei, preparei as quentinhas – muito bem-vindas a um homem que mora sozinho – com as sobras da comilança. Ela, ao lado, ajudando-me. Depois de um forte e, sem dúvida alguma, sincero abraço, em frente à casa, despedi-me e fui embora.
Não há como eu não ser levado a comparar a minha separação com aquelas que tenho observado, existindo em quase todas violências, ameaças, agressões psíquicas e, no mínimo, muito rancor e dor. O ódio e/ou a total indiferença são sentimentos muito comuns nas separações românticas.
Poderia citar vários casos, mas citarei apenas o mais recente de que tive conhecimento. Uma amiga, que chamarei de Andréa, há cerca de três anos, me disse que tinha muita vontade de se separar, mas não tinha coragem de declarar isso ao marido por ele dizer e “demonstrar” que a amava muito. Ele era muito ciumento e fazia tudo por ela. Por isso, ficava com pena e não queria fazê-lo sofrer. No mês de Novembro do corrente ano, não suportou mais e pediu a separação. Brigas homéricas e ameaças começaram a ocorrer, até que ele resolveu sair de casa. Poucos dias depois, durante a noite, vizinhos viram homens armados pulando o muro da casa em que estava morando sozinha. Para sua sorte, ela não estava dormindo em casa. Foi obrigada a largar o emprego e sair de sua cidade. Até agora não pôde retornar, pois não estão conseguindo localizar o ex-marido, que tanta declaração de amor lhe fez.
Qual a diferença entre a minha separação e a da Andréa? As verdades – ou, pelo menos, as suas buscas a dois.
A grande maioria das separações românticas é covarde e mentirosa. Um dos cônjuges percebe sua insatisfação e articula, aos poucos e em silêncio, a separação. Prepara-se psicológica, emocional e financeiramente para tal e, quando pronto, comunica ao parceiro, pegando-o de surpresa e não deixando bem claros os verdadeiros porquês da decisão. O resultado é o descontrole emocional, pois a outra “metade da laranja” está abruptamente sendo arrancada do cônjuge deixado.
No meu caso, durante muito tempo, passei à minha ex-esposa a idéia de que não existem duas metades de uma mesma laranja, assim como de que a instituição casamento não me satisfazia. Em nossas conversas, eu lhe dizia que éramos duas laranjas inteiras e independentes, porém, cada um com uma metade obscura e desconhecida por si mesmo e pelo outro, pois o casamento tradicional baseado no amor romântico não permite verdadeiros conhecimentos mútuos e nem os autoconhecimentos. De forma alguma eu poderia tirar o mérito de sua capacidade de compreensão, pois nos entendíamos sobre o que estávamos tratando. Assim sendo, agíamos como dois indivíduos independentes que estavam juntos porque assim realmente desejavam e não por obrigação contratual e romântica. Essa consciência baseada no respeito nos prepara para uma sempre e mais do que possível separação, não permitindo os normalmente observados violentos descontroles psicológicos. A separação baseada em verdades não joga o parceiro deixado em um pântano emocional, não havendo espaço para mágoa, rancor, ódio, etc. Apenas fica o carinho e amizade, apesar da tristeza causada exclusivamente pela saudade consciente.
O que seria a saudade consciente? Ela ocorre quando sabemos exatamente com quais verdadeiras características do outro deixamos de conviver, quando conhecemos de fato o parceiro que deixou o nosso convívio. Nos casamentos tradicionais e nas separações românticas não há espaço para esse tipo de conhecimento e cumplicidade. Estes são recheados de surpresas, normalmente ruins, durante e depois. Antes, tudo “promete” – assim queremos enxergar – ser a realização de um sonho.

