Todos estamos cansados de saber que o romântico senso comum afirma que quem ama sente ciúme. Por outro lado, dificilmente alguém discorda da tirania desse sentimento e que ele destrói tudo o que pode haver de puro em uma relação. Porém, comumente ouvimos: “ele é mais forte do que eu, não consigo controlá-lo”. Então, um “sábio” conclui: “Ele precisa existir na medida certa. Mas tem que estar presente na relação, senão é sinal de que não existe amor”.
Então, qual seria a “medida certa” desse sentimento? Respondo que a determinação dessa quantidade é egoísta e autoritária, variando de acordo com a carência afetiva, baixa autoestima e com as decorrentes inseguranças de cada um. Ela também pode ser oscilante, de acordo com as variações emocionais e afetivas no dia-a-dia do ciumento, pois, hoje, ele pode estar muito bem, ambos juntos em uma festa e, amanhã, sentir-se totalmente carente, exigindo tudo e mais um pouco do companheiro, completamente passível de, no meio de uma crise, dar o maior vexame em público porque a mulher, por exemplo, olhou para o lado, enquanto falava com ele.
“A quantidade de você que também me pertencerá – tempo, corpo, atenção, etc – será a necessária para que eu tenha os meus vazios preenchidos até transbordar de você e não sentir ameaça alguma de perder o que é meu. Ou seja, a minha paz interior e segurança dependerão única e exclusivamente de você, através de sua concordância com me permitir ser sócio-proprietário – e único – de tudo que EU precisar de você.”
Os graduados em romantismo consideram a incerteza, a real possibilidade do parceiro desistir da relação, de desejar uma terceira pessoa, de ser desejado e cobiçado por outros, ou mesmo de optar por não estar ao lado dele quando ELE deseja, precisa e quer, uma ameaça nociva à sua paz. Ele fica sem chão, acometido de uma “labirintite afetiva” – eu e meus neologismos de expressão! Resultado: depressão psíquica, tristeza, raiva, ira, violência, homicídio, suicídio, etc, etc, etc. Cada um com a sua “medida certa”.
Vamos à prática. O casal se conhece e, em poucos dias e gradualmente, começam a demonstrar seus lados ciumentos através das primeiras “caras feias” e imposições. Soa extremamente romântico. “Que gracinha! Ele ficou com ciúme da minha saia curta.” Em médio ou longo prazo, descobrimos o monstro que estávamos alimentando. Muitas das vezes, quando “cai a ficha”, é tarde demais. Depois, principalmente, se casados, concluímos que “só matando” mesmo, pois se livrar desse monstro é mais difícil do que no filme Alien – O Oitavo Passageiro, com Sigourney Weaver. Fora que, realmente, ele quer se apoderar do nosso corpo e mente, sugando todas as nossas energias para que ajamos de acordo com os seus objetivos.
Em uma relação, existem bem poucas coisas mais broxantes do que o ciúme. Não me refiro apenas à falta de desejo sexual, mas acaba ocorrendo o desestímulo de estar junto em qualquer situação. O ciúme bonitinho que, no início, foi uma agradável surpresa, toma uma dimensão incontrolável e se torna um pesado fardo.
Eu e algumas pessoas que conheço – claro que não românticas – já encaramos essa ameaça de uma forma completamente distinta e positiva: sexualmente excitante e um grande estimulante do autoconhecimento, crescimento e desenvolvimento da individualidade.
Muitos casais vivem buscando formas de resgatar a libido e apimentar a relação através de produtos e acessórios de “sex shop”, filmes pornográficos, diversos fetiches, etc. Pode até funcionar, mas temporariamente, pois se trata de um aquecimento fugaz que, em pouco tempo, deixa de fazer efeito e deles enjoamos. Onde existe ciúme e controle sobre o parceiro, o tesão saudável e consciente tem vida curta. Porém, encontro-me em um processo de descoberta de que o mais excitante, em um relacionamento, é a sensação de ameaça proporcionada pela liberdade que você reconhece como direito do parceiro, permitindo-o tê-la, mesmo ao seu lado.
Abrindo um parêntese, ressalto que nós não temos o poder de dar ou oferecer liberdade a alguém, pois esta a ele já pertence, dádiva da natureza, mesmo que ele não saiba disso e dela não usufrua.
Porém, excitar-se ou não se importar com a sensação de ameaça, diante da possibilidade do parceiro encontrar alguém e por essa pessoa se interessar, de ele fazer sexo com outro e sentir prazer, mesmo existindo a chance de perdê-lo, é um estágio bem avançado do amadurecimento dos respeitos à individualidade do outro e às sexualidades de ambos. Nesse estágio superior, a pessoa percebe que a natureza não lhe deu aval nem direito algum de dominar ou controlar alguém.
Dessa forma, só nos resta uma coisa: desenvolvermo-nos para que sejamos competitivos, como ocorre em todo mundo animal. O romântico fica estagnado em seus aprendizados hipócritas e ineficazes, tornando-se massante, e deposita no mundo e em todos as culpas pelos seus insucessos amorosos. Aqueles que querem filosofar, refletir, e que não aceitam os modelos sociais impostos vão se tornando conscientes dessa competição e para ela querem estar preparados. No entanto, os bichos usam a força para se estabelecerem – atitude repetida, infelizmente, por muitos homens, enquanto nós temos algo muito mais poderoso para prender o parceiro desejado – ou parceiros: a mente, através do comportamento, da inteligência, do reconhecimento do direito à liberdade. Certamente, quando você se predispõe a viver sob essas ameaças, logo aparece um romântico para lhe dizer que você está colocando tudo a perder, quando, na verdade, você está se preparando para se tornar um ótimo “jogador” e começar a ganhar carinho, respeito, admiração… está se preparando para conhecer o amor verdadeiro.
Todos sabemos, apesar de poucos se permitirem viver, que o desconhecido e incerto excita. A previsibilidade e inexistência/impossibilidade de mudanças e novidades, características marcantes do romantismo, devido à castração das liberdades por medo das ameaças, não são nada excitantes. Quando se é livre, existem poucos planejamentos a dois e nenhuma obrigação – claro que questões éticas precisam ser respeitadas. Mas quando acontece, tudo é feito com prazer real. Viver sob a sensação de ameaça e dela não ter medo provoca e proporciona afeto, carinho, toques, olhares, amizade, apoios mútuos, saudades, prazeres e arrepios como em nenhuma relação romântica, pois todas as trocas são legítimas. E nada impede que aconteça “todo dia”… basta, de fato, quererem.
Amar é permitir e respeitar as escolhas do outro, mesmo que, de vez em quando, você saia como perdedor. Se você está perdendo sempre, precisa reavaliar suas condições de competir, ao invés de, melancolicamente, ficar repetindo que os outros “competidores” estão sendo desleais ou que a pessoa perdida não soube reconhecer o seu valor. No entanto, perder, de vez em quando, faz parte do jogo.
O romântico busca o que de mais inibidor da libido existe em uma relação a dois: a segurança. Vai morrer se lamentando e se perguntando “onde errei”… várias vezes, ao longo da vida.
Não é possível sermos apresentados ao sentimento de amor verdadeiro por alguém, se essa pessoa não nos reconhece como seres livres. O resultado prático da passividade e conivência com essa falta de respeito, dentro da cultura romântica, é velho conhecido de todos nós.
Existe uma piadinha aparentemente idiota contada entre os homens e que ouço desde minha infância. Mas nela existe um forte fundo de verdade instintiva sobre a qual vale a pena refletir: “Existem três tipos de mulheres: a Chata, a Puta e a Filha da Puta. A Chata é aquela que só quer dar para você; a Puta é a que dá para você e para quem mais ela quiser; a Filha da Puta é aquela que dá para muitos, menos para você.” Qual delas vocês crêem ser a real predileção dos homens? Estou certo de que a mesma piada é valida, se invertida e contada sob a ótica feminina.

