Acredito que estejamos prontos para entrar em um assunto polêmico e carregado de medos, dúvidas, incertezas e – por que não? – hipocrisias: o poliamor. Mesmo que muitas de vocês ainda não o conheçam com esse nome, provavelmente já se fizeram essa pergunta: “Será que é possível gostar de duas, três ou mais pessoas ao mesmo tempo? Isso é legítimo e factual ou estou em meio a um devaneio promíscuo e sem sentido?”
Porém, antes de começar a discorrer sobre o assunto, gostaria de fazer um comentário sobre o meu processo criativo. Quando me proponho a escrever sobre determinado tema comportamental que aborde a sexualidade, não costumo fazer compêndio de ideias de outros autores. Normalmente, o processo é assim:
1) a vontade brota de minhas curiosidades e da sede de liberdade. Olho para dentro de mim e “me ouço”;
2) crio as oportunidades para viver a experiência desejada. Não espero o acaso;
3) No “durante”, situo-me dentro e fora do que está ocorrendo, sendo agente e observador, ao mesmo tempo. Tento avaliar, no momento, o que estou sentindo, assim como o que se passa com o(s) outro(s);
4) Depois, penso em tudo que aconteceu, converso muito com a mulher e tiro minhas próprias conclusões, baseado em minhas sensações e nas dela, por ela descritas; e
5) Dependendo do assunto, a partir de então, faço pesquisas na internet ou busco livros que falem sobre o mesmo assunto, a fim de reforçar e/ou enriquecer o que irei escrever.
Resumindo, tenho por hábito não permitir que idéias ou experiências de outros influenciem ou induzam as minhas sensações e conclusões. Assim sendo, com o artigo Poliamor não foi diferente. Não são teorias, são práticas. No entanto, é fato que me falta uma experiência: um casamento baseado no legítimo poliamor, com os dois dividindo o mesmo teto. Apenas tive e tenho relações baseadas no poliamor com ambos morando em casas distintas.
Não me aterei a definições detalhadas sobre o que é o poliamor e algumas sutis nuanças – até porque o que menos importa é rotular subcategorias, em função de existirem vários artigos e entrevistas fazendo-o, na Internet. Também não repetirei vários conceitos e depoimentos que se encontram na web, pois a eles vocês poderão ter acesso através dos links sugeridos no final do artigo – um deles encontra-se abaixo. Focarei mais as minhas próprias experiências e sensações.
http://pt.wikipedia.org/wiki/Poliamor
Por hora, basta-nos entender que poliamor é a admissão da possibilidade, assim como a sua prática, de uma pessoa possuir real desejo sexual e relacional por mais de uma pessoa, delas gostar, amá-las, etc, ao mesmo tempo. Ele nega a monogamia e exclusividade romântico-afetivas como únicas e autossuficientes formas do casal e cada indivíduo que o compõe serem felizes. As pessoas possuem características muito diferentes. Vamos imaginar um homem pensador/filósofo e um outro engraçado/piadista. Ora a companhia de um pode lhes interessar, ora a do outro.
O poliamor é diferente da relação aberta e da poligamia.
Poliamor: a pessoa possui afeto real e desejo sexual por mais de um parceiro. A questão central do poliamor não está na liberdade sexual, apesar de ela existir, e sim na liberdade de amar;
Relação aberta: os parceiros podem se relacionar sexualmente com outros. No entanto, o envolvimento afetivo não é aceito. Ex: swing, prática na qual se evitam demonstrações de carinho, sendo bem comum haver ciúme, caso o parceiro se desfoque do objetivo: o sexo alternativo. Percebam que este pode ser uma prática da relação aberta, porém, nem todos que possuem relações abertas praticam o swing. A questão central da relação aberta está na liberdade sexual e na grande possibilidade de existirem fortes ciúmes afetivos;
Poligamia: é a assunção de relacionamentos estáveis com mais de uma pessoa, ao mesmo tempo. Está relacionado ao casamento poligâmico, como no mundo árabe. É proibido nos países cristãos. Divide-se em poliginia (o homem com várias esposas) e poliandria (a mulher com vários maridos).
Podemos perceber que viver o poliamor não deixa de ser abrir a relação, mas o contrário não é verdadeiro.
Obviamente, qualquer prática que fuja dos preceitos cristãos do casamento tradicional será combatida pelos conservadores. Costumo dizer que a sociedade ocidental e cristã está “pouco se lixando” para a liberdade e felicidade do indivíduo, assim como para sua paz interior. Para ela, o importante é a manutenção das instituições, dentre elas a tradicional família patriarcal, através da disseminação da moral e bons costumes, com seus conceitos de certo e errado, puro e pecaminoso, digno e indigno.
Exceto pela fome e pelas doenças, nada nos tem feito sofrer mais do que as questões que envolvem os relacionamentos romântico-convencionais e o sexo. Por quê? Porque o que exigem de nós agride a nossa natureza pura e livre. Então, somos obrigados a nos comportar e a nos relacionar de uma forma contrária ao que a nossa essência clama: sem liberdade alguma. A única liberdade que temos é de fazer o que esperam que façamos. O simples desejar transgredir já nos faz – principalmente nas mulheres – sofrer e sentir culpa.
Eu não tenho dúvida alguma de que uma grande parte das pessoas, se conseguisse se imaginar desprovida dos sentimentos de posse e ciúme, gostaria de viver uma relação de poliamor. Afinal, isso já é feito por muitos às escondidas. A grande questão é a permissão.
Antes de escrever este artigo, li vários outros na Internet, assim como alguns blogs com comentários. É impressionante a disparidade de opiniões entre homens e mulheres: estas, sempre bem mais flexíveis, e eles com suas escopetas machistas, hipocritamente apelando para a religião.
Baseado em que, afirma-se que o amor é exclusivo e que só conseguimos amar uma pessoa de cada vez? Claro que é perfeitamente possível desejarmos, muito mais do que sexualmente, duas ou mais pessoas ao mesmo tempo. Muitos de nós já passamos por isso, ao viver o rompimento de um relacionamento e, em seguida, iniciar outro. Muitos encontros escondidos foram mantidos com o(a) ex. Os dois (as duas) ficavam em nossas mentes, sentíamos saudade, etc. Nesses casos, os religiosos se ajoelham e rezam muito, pedindo para que Deus os livre desse pecado carnal.
Nas matérias que tenho lido sobre esse assunto, existem vários depoimentos de mulheres que sofriam e sofrem demais com esses sentimentos de culpa, por desejarem ou admitirem gostar de “outro”.
Poliamor não é nenhuma novidade ou modismo, assim como também não o são o homossexualismo. São tão antigos quanto a humanidade. A novidade real que temos é a permissão, pois nos encontramos em um processo de mudança social em que as pessoas estão cada vez menos preocupadas com repercussões ou críticas sociais. Em um processo bem lento, estamos, cada vez mais, mergulhando em nossos EU’s. Estamos passando, silenciosamente, por uma proativa transformação egoísta – com todo o bom sentido da palavra, cada vez mais dispostos a desvendar nossas essências e mais atentos aos clamores de liberdade de nossas almas.
Como fica o possessivo sentimento de ciúme? Já ouvi demais muitas pessoas proferirem que o ciúme e a mentira fazem parte da natureza humana. Muito antes de ser uma afirmação completamente equivocada, ela denota ignorância, covardia e total desconhecimento do que possa significar a palavra amor ou qualquer sentimento incondicional similar. Nossas essências, em seus estados primitivos, são totalmente desprovidas do ciúme e da mentira.
O primeiro passo para experimentar o poliamor seria o autoconhecimento e conseqüente entendimento de que desejamos, de fato, ser livres. A aceitação pelo(s) outro(s) é até desejável, porém, não deve ser determinante ou limitadora para que concluamos e expressemos que queremos ser livres, dentro das limitações éticas… danem-se as morais.
Existindo a consciência de que nascemos para ser o mais livres “possível” – já que vivemos aglomerados em sociedade, basta nos colocarmos no lugar do outro e perceberemos que ele, assim como nós, também possui os mesmos desejos e as mesmas necessidades. Então, ambos param para conversar e “vomitam” tudo o que estava atravessado nas gargantas: cartas e verdades na mesa. Dessa forma, estaremos caminhando em direção a algo similar ao que se chama amor incondicional. “Quero você, eu escolhi você, exatamente, da forma e pelo jeito que você é”. A partir de então, entra em processo a morte natural do ciúme, pois a admissão mútua das verdades e os seus respeitos começam a asfixiá-lo. Ele pode até não morrer mas, com paciência e muita conversa, ele desce a um nível perfeitamente controlável e interessante, prazeroso. Entra, então, a sensação de ameaça que age positivamente no relacionamento, sobre a qual já muito conversamos.
E qual o resultado disso? Muito sexo? De forma alguma e, normalmente, muito pelo contrário. Quando precisamos mentir, fazer escondidos, aquelas que se permitem se agarram a qualquer situação que julguem “valer a pena” para experimentar um sexo diferente. Quando as mentiras saem de cena, o proibido perde o sentido e deixa de existir a traição. Se, de certa forma, podemos escolher quando, onde e com quem fazer, temos o livre-arbítrio para planejar melhor, esperar a melhor oportunidade e ser bem mais seletivos. Aquele “valer a pena” muda completamente de sentido. Adoro uma frase que criei e que vocês já a têm lido: eu, cada vez mais adepto do poliamor, estou aprendendo a “fazer amor”… e os românticos continuam fazendo o que mais defendem não desejar fazer: trepar.
E sobre o risco da perda? Meninas, sejam sensatas! Que diferença faz? Além das mentiras, mesmices e consecutivos sofrimentos, que outras garantias as relações românticas têm nos oferecido? Uma coisa lhes garanto: é indescritível a leveza e a paz interior que o “não mentir” tem me proporcionado.
Ciúme? Sinto um pouco sim, porém, é como descrevi acima: muito bem controlado. Mas tenho a consciência de que é uma peleja entre minha essência pura e a cultura. Mal ou bem, esse “bicho ruim” já está bem exorcizado.
Gostaria que entendessem que não sou radicalmente contra a monogamia. Sou contra a sua existência imposta, que é exatamente o que vivemos. A única forma de saberem se a vivem por opção ou obrigação é mergulhando profundamente em seus EU’s e, “daí de dentro”, tentar avaliá-la a partir da ótica do verdadeiro livre-arbítrio, da liberdade. Mesmo assim, sou levado a crer que, se isentos do piano cultural que tanto nos pesa, poucos optariam por ter apenas um parceiro. Mesmo assim, acredito ser possível, oscilando de acordo com os diversos momentos em que nos encontramos, ao longo de nossa vida. Eu mesmo, atualmente, estou vivendo um momento praticamente monogâmico, mesmo me vendo, em termos de sobra de tempo e, conscientemente, completamente livre para fazer o que quero. Isso é liberdade.
Apenas um detalhe acerca de minha última frase: a opção por um momento calmo e “quase” monogâmico é minha, independentemente do que “ela(s)” esteja(m) fazendo neste momento. Não existem cobranças e nada tem a ver com paixão. A minha paz precisa ser o mais descolada possível das escolhas e atitudes dos que me rodeiam. Até porque estou sozinho, neste exato, momento por pura opção. Poderia não ter escolhido isso, hoje. Acho que estou no caminho.
Pararei por aqui, pois ainda teremos muito o que explorar e trocar, ao longo dos comentários, sobre este assunto. Sei que alguns pontos não foram bem esclarecidos e já aguardo perguntas. Porém, se fosse tentar abordar todas as variáveis, o artigo se tornaria muito extenso.
Comunidades no ORKUT:
- O Mito do Amor Romântico
- Poliamor Brasil
- O Mito da Monogamia
- Amor Livre
- Feminismo e Libertação
- … e muitas outras
Links relacionados:
http://mulher.terra.com.br/interna/0,,OI1916843-EI4788,00.html
http://www.samila.com.br/kelly/bitch/folheto_poliamor.html
http://www.eusoqueriaumcafe.com/2009/08/entrevista-poliamor-o-fim-do-amor.html
http://swasthya.marcocarvalho.com/o-que-e-um-relacionamento-aberto/
http://stoa.usp.br/naomitchan/weblog/13403.html
http://www.overmundo.com.br/banco/e-esse-tal-poliamor
http://colunas.epoca.globo.com/mulher7por7/tag/poliamor/
http://nao2nao1.com.br/entrevista-com-marco-carvalho-serie-%E2%80%9Chomens-sem-segredos%E2%80%9D-4/
http://www.melhoramiga.com.br/2009/11/poliamor/
http://blog.estadao.com.br/blog/palavra/?title=a_solucao_e_o_poli_amor&more=1&c=1&tb=1&pb=1

