18. Lidando com a impotência

Provavelmente, quando você leu o título, deve ter imaginado que eu falaria sobre a dificuldade masculina de conseguir a ereção. Assim como a frigidez feminina, vaginismo ou pouco prazer nos atos sexuais, tenho as minhas convicções acerca das causas desses problemas nas vidas de muitas pessoas. Mas não será dessa vez que tratarei desses assuntos.

Gostaria de falar sobre a impotência para lidar espontaneamente com o livre-arbítrio do parceiro. Ela nos impede de ter atitudes que demonstrariam, no mínimo, compreensão da individualidade daquele(a) com quem estamos nos relacionando e a quem declaramos amar. Diante da sensação de impotência, em casos mais extremos, ocorrem ameaças, violências e homicídios. Em inúmeras situações, por insegurança, queremos interferir nas decisões do outro, através de chantagens emocionais, por carência afetiva e com o único intuito de nos proteger, pouco nos importando se ele ficará feliz ou não com a própria decisão final, após as nossas opiniões e influências tendenciosas – que quase sempre visam a atender apenas ao nosso próprio alento interior.

Somos completamente despreparados para o jogo das relações. Quando começarmos a entender que o verdadeiro amor é excitante, lúdico e que é cheio de surpresas – boas ou não – estaremos nos iniciando como bons jogadores. Somos péssimos competidores: ninguém quer perder e aceita a derrota. Cada um tem suas armas, cartas na manga e agendas ocultas para tentar virar a mesa, caso perceba a iminência da perda – na maioria das vezes, os homens são os mais despreparados e os que mais reagem. Como em vários filmes que já assistimos, quando as apostas são altas e ele percebe que vai perder, vira a mesa, saca a arma e atinge o vencedor.

No jogo de cartas, por exemplo, sentimo-nos impotentes para fazer tudo transcorrer como gostaríamos… é ter sorte ou azar. Se não formos agraciados com as melhores cartas, fatalmente perderemos. Nos relacionamentos, a impotência advém da liberdade de escolha que todos deveríamos ter e entender que também é direito do outro. Precisamos aprender a lidar com ela, não a deixando corroer as nossas entranhas, como normalmente acontece.
Apesar de o amor poder ser comparado a um jogo, pois podemos perder ou ganhar, bem diferentemente do que a maioria das pessoas pensa, o primeiro é uma arte, não dependendo em nada de sorte. O jogo só depende de sorte ou azar. Como escreve Erich Fromm, em seu livro “A Arte de Amar”, para exercermos bem uma arte, precisamos nos preparar para ela. No entanto, amar não deveria ser tratado como tal, pois essa sensação poderia perfeitamente emanar dos desejos naturais dos seres pensantes, conscientes de que gostamos e precisamos nos relacionar. Mas acaba passando a ser pois, para descobrirmos o que é o verdadeiro amor, precisamos nos desapegar de muitos valores morais que a sociedade machista e capitalista nos ensinou… isso exige muito esforço e psicomalabarismos no conceito aprendido acerca do amor. Então, vira uma arte, pois exige dedicação. Como diz Fromm, deixamos de ser indivíduos, pessoas, almas e passamos a ser produtos. “O que interessa é saber se o outro vai atender às MINHAS necessidades financeiras e emocionais, dentre outras, e se meus amigos gostarão de me ver usando e vestindo aquela pessoa. Mas se ela não funcionar como no manual que me deram, vou me aborrecer, jogar fora e comprar outra – possivelmente, não antes de complicar o máximo possível a sua vida”. Não são pessoas que se casam… são objetos funcionais.. Só falta possuirmos número de série, com o nome do fabricante acima: Hypocrisy Corporation Inc. – já que é uma prática de todo o ocidente, usemos a língua universal. No Brasil, seria Hipocrisia S.A., montados em uma zona que de franca nada tem.

Além de termos sido criados para ganhar sempre, passaram-nos a falsa idéia de que as pessoas e os relacionamentos são cartesianos e previsíveis. Mudanças comportamentais e das escolhas anteriormente feitas passaram a ser decepcionantes, pecado e uma demonstração de instabilidade emocional. Dessa forma, não somos nada preparados para lidar com as perdas e algumas frustrações. Consequentemente, respiramos o eterno e para sempre – a não ser que a vontade da quebra dessa regra seja “minha”… nesse caso, exijo compreensão.

Gente, é muito difícil amar. Os valores que nos ensinaram não nos levam ao amor. Eles nos orientam apenas em direção ao narcisismo, à necessidade de poder sobre os olhares, pensamentos e ações do outro, ao controle, às garantias e aos mimos pessoais. O exercício do aprendizado de amar é realmente doloroso, pois exige a desconstrução de uma gama de valores e posterior construção de outros. Uma simples reforma não adianta nada.

Queremos ter a sensação de onipotência, principalmente os homens, de sermos o centro da vida do outro. A possibilidade da liberdade de quem afirmamos amar nos remete à sensação de impotência sobre uma iminente perda… e, no início, é muito difícil lidar com ela. Por isso as relações viram um cárcere. Mas precisamos aprender. Perseverando, o prazer dessa libertação começa a despontar e a nos regozijar. Precisamos entender que, de fato, não temos poder algum sobre as ações do outro e, a cada década que passa, menos ainda sobre a mulher. Precisamos compreender que a nossa necessidade de poder gera angústia e tristeza profunda na pessoa que dizemos amar. Precisamos entender que assumir a impotência que temos sobre o destino do outro, como algo natural, e que também reflete na incerteza do destino do relacionamento, é essencial para uma relação saudável e duradouramente intensa. Somente aqueles que aprendem a lidar com a impotência e que vêem na decorrente incerteza algo excitante são capazes de ser realmente amados.

Desmistificar a necessidade de poder e de segurança em um relacionamento é uma das etapas do aprendizado do amor.

Qual a diferença entre um relacionamento nesses moldes e, provavelmente, o seu? Verdades e mentiras… nada mais do que isso. O poder que você acha que tem sobre ele(a) é ilusório e serve apenas para acalmar a sua insegurança. Quando o seu parceiro ficar de saco cheio de brincar de deixar você achar que é o centro da vida dele, você vai tomar um surpreendente pé na bunda, sem aviso prévio. Não é assim que acontece?

O amor romântico exige a falsa sensação de poder traçar o destino e controlar as ações do outro, assim como de dependência deste. O amor verdadeiro se delicia e goza com as consciências mútuas de impotência e independência.

“Se você não confia no amor, ele deixa de existir.”
Roberto Freire, em “Cleo e Daniel”

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Comentário para 18. Lidando com a impotência

  1. Susy escreveu:

    Muito bom, você sabe como escrever e descrever, gostei muito….

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