19. Repensando verdades

No último comentário que fiz, no artigo anterior, citei a falta de inspiração como a justificativa para o meu silêncio, por mais de um mês, devido a uma nova empreitada de estudante que se iniciou no dia 22 de fevereiro deste ano. O último artigo foi escrito, exatamente, uma semana antes, no dia 15. Confesso que esse intervalo estava incomodando-me bastante, apesar de saber que qualquer atividade criadora não depende apenas da simples vontade de fazer a obra nascer; ela não depende apenas do desejo consciente daquele que se presta a fazê-la surgir, por mais simples que seja, como a minha o é. É senso comum entre os artistas – não que eu seja um – que forçar a barra é provocar a morte de sua proposta perante seus apreciadores – para aqueles que já os têm – e a inviabilização de que novos admiradores surjam.

No entanto, durante esse período, estive me perguntando: “Será que é apenas falta de inspiração provocada pela obrigatória atenção que tenho dado às ciências exatas, em meus atuais estudos?” Sinceramente, ainda não tenho uma resposta definitiva. Porém, já possuo um esboço da mesma: não posso atribuir a culpa apenas à elevada carga horária discente na qual embarquei. Creio que novos ajustes e cursos de pensamentos aos quais minhas últimas experiências, leituras e reflexões têm me levado, gerando alguns tipos de incertezas que, por fim, têm me remetido a algumas novas indagações e a alguma insegurança, contribuíram para esse período sem produção. Cronologicamente, acredito que tenha ocorrido nada mais do que uma coincidência. Vou tentar explicar.

Lembro que, há pouco mais de um ano, quando comecei a escrever o meu livro, eu sabia que tinha muito o que viver, sentir e aprender. Porém, acreditava possuir uma boa ideia de como transcorreria, em minha vida, a gradual aplicação prática da filosofia existencial na qual estava mergulhando, sendo detentor de várias certezas e verdades. No entanto, atualmente, percebo que elas não passavam de parcas noções.

Apenas para ilustrar, eu estava certo de que, em um breve momento, eu iria escrever artigos mais voltados para o sexo em si, falando sobre possíveis curiosidades bissexuais que rondam muitas pessoas, swing e ménage, por exemplo, dentro ou não do modelo de relacionamento poliamor. Atualmente, tenho minhas dúvidas sobre a necessidade de abordá-los, pelo simples fato de que, amparados pela autoconsciência e tendo o amor, carinho e liberdade como linhas mestras, qualquer prática relacional deve ser isenta de julgamentos e de culpas. Ou seja, é muito pouco conversarmos sobre essas práticas levianamente condenadas se não conseguirmos nos sentir indivíduos munidos da capacidade de escolha, livres para se relacionar e amar a quem quer que seja, da forma que nos convier. Se essa viga psíquica não for muito bem construída, provavelmente a culpa nos pegará. Consequentemente, entregaremo-nos apenas parcialmente e a ressaca moral será certa.

Aqueles que me acompanham desde o início e/ou leram boa parte dos meus artigos e comentários, podem perceber que eu os iniciei focados no amor, na liberdade, nos relacionamentos e na sexualidade feminina que, como eu já expliquei, trata-se de assunto bem amplo e vai muito além do sexo em si, sendo este apenas uma das expressões daquela. Podemos notar que, aos poucos, a sexualidade e os relacionamentos foram deixando de ser o cerne das questões dos meus textos, dando lugar ao indivíduo, apesar de eu nunca ter deixado de citá-lo e valorizá-lo. Porém, creio que, no início, a ele tenha dado menos importância do que realmente possui isoladamente, ao como deve e merece ser refletido, cujas razões existenciais precisam ser pensadas e discutidas, em primeira mão, independentemente da forma que exerce sua sexualidade. Em suma, concluí que deveria ter começado com o indivíduo para depois conversarmos sobre as relações.

Não mudei de ideia acerca do determinismo do exercício da sexualidade sobre os variados graus de ansiedades, neuroses e possíveis psicoses que afligem as pessoas, principalmente nos tempos modernos – até porque vários psicanalistas, psicólogos e outros autores consagrados também defenderam e defendem tal linha, tais como Freud, Wilhelm Reich, Foucault, Marcuse, Rollo May, Roberto Freire, Erich Fromm, Arnaldo Jabor, dentre outros. No entanto, percebi que é quase inócuo discutirmos relacionamentos sem antes tecermos abordagens a respeito da essência do ser humano e suas questões existenciais: o self. Naturalmente, eu fui me voltando para ele – logo, também para MIM! – tanto em termos de reflexões baseadas em minhas experiências recentes, como de leituras diversas.

Para reforçar o que estou tentando lhes passar, cito um dos últimos parágrafos do livro do psicoterapeuta americano Rollo May, intitulado “O Homem a Procura de Si Mesmo”. Em minha opinião, trata-se de ótima leitura para nos levar a pensar de forma bem objetiva em nossa existência, o que fazermos de nossa breve caminhada neste mundo, no que realmente queremos para as nossas vidas, no por que agimos dessa ou daquela forma, na sociedade, religiões, na carga negativa da maioria dos pais em nossas escolhas ao longo de nossas vidas, etc. O autor dedicou o final do seu livro a uma abordagem sobre o amor e escreveu o seguinte:

“… o verdadeiro problema das pessoas de nossa época antecede o do próprio amor: é tornar-se capaz de amar. Ser capaz do intercâmbio responsável do amor é o critério mais seguro que possuímos para julgar a personalidade realizada. Mas por isso mesmo é uma meta conquistada somente na proporção em que se preencheu a condição anterior, que é tornar-se uma pessoa independente. De modo que todo o livro, e não apenas esta parte, poderia ser chamado de “prefácio ao amor”.”

Em resumo, nesse capítulo, Rollo afirma que o amor é um fenômeno raro em nossa sociedade e que é uma atitude néscia e, no mínimo, que denota total imaturidade, querermos verdadeiramente amar e nos fazer em condições de ser amados, sem um profundo e nada fácil autoconhecimento e independência afetivo-emocional. Por isso a banalização generalizada da atitude de amar. Durante todo o livro ele fala sobre questões existenciais do indivíduo, que o ser humano contemporâneo é pobre de espírito, ansioso, vazio e, somente no final, ele fala do amor, nesse capítulo que chamou de “Prefácio ao amor”. No mesmo capítulo, diz, ainda, o seguinte:

“… Na sociedade contemporânea existem todos os tipos de dependência fazendo-se passar por amor, uma vez que há tantas pessoas ansiosas, solitárias e vazias. Variam entre diferentes tipos de ajuda recíproca ou recíproca satisfação de desejos (que talvez sejam bastante sérios, caso recebam suas verdadeiras denominações), passando pelas várias formas “comerciais” de relação pessoal, até chegar ao nítido masoquismo parasítico. Não é nada raro encontrarmos duas pessoas que, sentindo-se solitárias e vazias, entram numa espécie de relacionamento, em um mútuo acordo para se protegerem da solidão…”

Durante essa longa fase em que tenho me voltado cada vez mais para o meu interior, tentando dialogar mais com meu EU, percebo que algumas “intenções de verdades” que eu tinha podem não corresponder exatamente ao que o meu self busca e deseja – mas isso ainda é uma suposição. Não acredito que eu tenha errado de direção. Apenas começo a supor que me encontrava apenas “mais ou menos” no sentido que me levaria a uma maior paz interior. Um exemplo: eu era um forte defensor do poliamor, achando que este modelo de relacionamento seria a mais legítima expressão da liberdade do ser humano e que, assim sendo, deveria ser buscado. Aos poucos, veio-me surgindo uma indagação: “será que não estou querendo, de fato, conhecer o sublime amor verdadeiro ou confluente, como o chama Anthony Giddens, ao mesmo tempo em que não quero abrir mão da antiga vaidade de macho predador e consumidor do sexo oposto? Qual o meu desejo prioritário? Aprender a amar alguém ou provar que somos capazes de amar mais de uma pessoa ao mesmo tempo, sem conflitos?”

Estas questões começaram a brotar à medida que eu tentava responder às difíceis perguntas “o que eu quero e do que eu realmente preciso?”, ao mesmo tempo em que venho percebendo que o exercício da arte de amar a apenas uma pessoa já é algo muito difícil – pelo menos para um principiante como eu.

Gostaria que entendessem que não acho o relacionamento aberto ou o poliamor inviáveis e não há razão alguma para descartar nada do que escrevi até agora. Muito pelo contrário, acho-os ótimas expressões de liberdade e admito vivê-los. Como sempre, continuo empunhando a bandeira da liberdade e defendendo-a como única forma de conhecermos o amor verdadeiro. Apenas creio que errei, ao mal estar conseguindo me equilibrar em uma bicicleta com aquelas duas rodinhas de apoio, tolamente pedir emprestada a motocicleta de mil cilindradas do meu cunhado, namorado de minha irmã mais velha. Em suma, creio que seja mais sensato seguir uma linha mais focada no aprendizado do que é amar… depois, quando eu estiver relativamente proficiente nele e se acontecer, vou pensar em participar de MotoCross.

Em seu livro intitulado “Amor é Prosa, Sexo é Poesia”, Arnaldo Jabor faz menção a um conto de Carson McCullers, onde um homem conta que, “antes de amar uma mulher, estou aprendendo a amar as pedras, as árvores, as nuvens…” Então, tenho pensado que seria tolice tentar queimar etapas. Aproveito-me para refazer a frase, expressando-a em uma ordem de prioridade: preciso aprender a amar as pedras, árvores, nuvens, uma mulher, duas mulheres, etc.

Todas essas questões me travaram e exigiram um reordenamento de pensamentos. Mas apesar de um pouco angustiado com as dificuldades para escrever, encontrava-me feliz pelos novos “insights”. De forma alguma me vi frustrado por ter mais dúvidas e incertezas do que antes e por acreditar que me equivoquei em algumas prioridades. Mantenho todas as ideias já escritas. Apenas achei que era importante manter o 1 antes do 2, este antes do 3, e assim por diante. Posso vir a alterar algo novamente? Sim… não me importo.

Colocar os pensamentos em prática ou aplicar a filosofia deve ser isso mesmo: dinâmica sempre, com grandes possibilidades de, algumas vezes, concluirmos que nos equivocamos e que o mais sensato é voltar a algum ponto anterior, sentar e refletir.

Abraços a todos. Estou feliz por ter conseguido escrever.

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