21. É pouco mas é seguro – o casamento e o emprego público

Esta semana, lendo um livro do filósofo ítalo-argentino José Ingenieros, chamado O Homem Medíocre, ocorreram-me insights acerca de possíveis analogias entre o casamento e os concursos públicos para assunção de diversos cargos – certamente, alguns são bem interessantes e atrativos, assim como alguns casamentos também os são. No entanto, de um modo geral, vamos ver se as similitudes que imaginei podem ser, de fato, constatadas.

Todo concurso público começa com um ato escrito oficial, chamado edital, onde a instituição que irá admitir novos funcionários deve manifestar todas as datas, exigências, regras e deveres dos aspirantes aos cargos, durante o processo de seleção.

Claro que, para os candidatos a um namoro “sério”, visando a um possível matrimônio, não existe um documento que estabeleça o perfil do candidato e as regras do processo de admissão ao casamento. No entanto, existem expectativas consuetudinárias – baseadas nos costumes – que nortearão a futura decisão de admissão ou não do pretendente ao casamento, quando ambos são mutuamente avaliados, durante a fase de experiência chamada namoro. A semelhança está no fato de que tanto o edital quanto o perfil do parceiro almejado são rígidos – neste caso, os valores inflexíveis são herdados e impostos pela moral vigente. Nos dois casos, respectivamente, o objetivo é que não haja margem para impetrações de recursos e para que o candidato se enquadre na normalidade desejada e seja aceito não apenas pelo futuro nubente, assim como por toda a sua família e amigos. Para tal, basta agir e parecer ser – não precisa ser, por mais que fuja à personalidade, de forma que passe a ideia de que será um(a) bom(a) e digno(a) marido, esposa, amante, pai, mãe, genro, nora, etc.

Apenas um parêntese. Atentemos para a realidade dos adotados conceitos de normal, anormal, moral e imoral. Eles são extremamente dinâmicos. Pergunta que me inquieta: se Deus é o mesmo desde o princípio de tudo, a Bíblia a mesma há séculos, e se os nossos costumes morais sempre foram balizados pela Igreja, por que tantas práticas que “levaram” tantas pessoas para o inferno no século XIX e início do XX, por exemplo, não surtem o mesmo efeito hoje? Deus tem acompanhado a modernidade e ficado bem mais flexível? Estaria Ele enviando circulares ao Vaticano determinando a revogação de leis anacrônicas? E o povo todo que foi torrado durante a Inquisição? E as milhares de mulheres que foram assassinadas em nome da honra dos maridos e milhões de mortos em nome de nosso senhor Jesus Cristo, ao longo dos séculos, com a aquiescência de Vossa Santidade, o Papa? Suas almas têm sido anistiadas e resgatadas para o céu, à medida que as leis se afrouxam? Cabe indenização? Não seria mais lúcido pensar que a Igreja, em conluio com os governos – não sei quem deve mais favores a quem, diante das factuais necessidades evolutivas e descolamento social da religião, tem adaptado a fé e os seus dogmas à modernidade, com o único intuito de não perder seus fiéis, mostrando às corporações e aos governantes que ainda mantém ascensão e domínio sobre o povo? Não tenho dúvida alguma de que o aborto, em breve, deixará de ser pecado. Por que, hoje, não se prega mais a castidade até o casamento? Flexibilidades de Deus?

Eu acredito em um ser superior e tenho buscado sentir a sua energia divina, mística, transcendental, perfeita, que, atualmente, rege todo esse cosmo com o mesmo humor e as mesmas leis de milhões de anos atrás. Para ele, nunca mudaram os conceitos de bondade, ética e amor. Ele ignora completamente essa moral que acompanha e varia com os miseráveis interesses dos homens. Será que o Deus cristão já tem IPhone 3G e Twiter? Fecha parêntese.

Retornando, faz-se interessante ressaltar que, em ambas as situações, todos os interessados buscam estabilidades. Em um caso, o vitalício salário garantido, e no outro, o casamento com sua “garantia” afetiva e também vitalícia, através da construção de uma família. Como muitos dizem, a certeza de que terão alguém que os assista em suas velhices. Neste último, questões financeiras também são bem consideradas e avaliadas. O íntimo de cada candidato, o que realmente agregará, a exata forma que pensa e o que anseia, as reais afinidades, nunca são transparentes e não passam de meros detalhes: são desnecessidades tácitas entre as partes; o que interessa é a classificação no processo seletivo para futuro preenchimento da vaga.

Consideremos que quem escolhe e decide entrar para a instituição seja o agente e esta – órgão público e casamento – o objeto. Então, em relação ao primeiro, teremos o candidato como agente e, no caso do matrimônio, o homem e a mulher com suas opções pela entrada na instituição casamento. Outra similaridade que podemos inferir é que, nos dois casos e na grande maioria das vezes, a garantia de futuro é o fator mais importante. Se há, de fato, amor pelas e reais afinidades com as pessoas, rotinas e tarefas que lhes esperam, é fator secundário e pouco importante. Apenas os considerados bônus merecem apreço. No caso do concurso, é irrelevante se é para monge, policial federal ou guerrilheiro; o salário garantido é o essencial. No do casamento, terem suas próprias casas e constituir uma família… e que seja o mais rápido possível. Ser funcionário público e casar é tudo.

Exigências atendidas e passada a fase de admissão, começa o trabalho. Inicialmente, a empolgação com a mudança de rotina, a atenção dedicada ao aprendizado das novas tarefas e a vaidade diante dos que os rodeiam inspiram orgulho e fazem com que tudo seja divertido. Tudo transcorre satisfatoriamente, mesmo com algumas iniciais e irrelevantes decepções aqui e acolá. A nova vida aprovada e comemorada por pais, parentes e amigos vai bem, obrigado(a). Os iniciantes agentes atendem muito bem às expectativas dos objetos, até que, depois de algum tempo, familiarizam-se com todos e tudo que diz respeito às suas obrigações e nada mais é novidade. Em um dado momento, os sublimados problemas iniciais começam a tomar maiores vultos psicológicos e, gradualmente, a enfastiá-los, ao mesmo tempo em que outros começam a aparecer.

Estabilizados e se sentindo seguros, as dedicações e os zelos nos atendimentos das obrigações, exigências e regras da fase inicial já não são mais os mesmos. Os lapsos começam a ocorrer e se tornam recorrentes. A obsequiosidade inicial, aos poucos, esvai-se. A irritabilidade começa a aparecer devido às discordâncias de algumas imposições arbitrariamente feitas, responsabilidades cobradas e às rotinas laborais. As promessas e compromissos, antes assumidos pelas instituições, deixam de ser cumpridos ou, em parte, alterados, em nome de outras necessidades importantes que não foram previstas, consideradas ou conversadas anteriormente – ou que, propositadamente, não foram inseridas nos “editais”. Aos poucos, observa-se descaso com a necessidade de um diálogo visando a um esclarecimento ou entendimento, o qual é sempre adiado. Então, a autoestima começa a ser minada, pois o antes empolgado calouro deixa de se perceber indivíduo e se sente apenas um ser com estrita função utilitária. O que começou a ser realizado com algum prazer passa a ser obrigação. Ninguém lhe pergunta se existe prazer no que faz. Como resultados, emergem os ônus da decepção e do tédio – normalmente silenciosos, no caso dos casamentos – apesar dos objetivados bônus obtidos com sucesso. As validades das opções pelas futuras seguranças começam a ser questionadas.

Internamente desmotivados, começam, literalmente, a se rebelar contra a instituição pública e casamento, colocando a culpa nas duas, quando, na verdade, não conseguem perceber que são os únicos responsáveis pelas suas escolhas. Foram voluntários. O fato de terem dado ouvido a terceiros e aos sofismas do senso comum não remirá suas culpas. Em ambos os casos, na ótica das instituições, livrar-se dos rebeldes que buscam mais prazeres nas realizações pessoais do que elas podem e querem lhes oferecer dará um enorme trabalho legal, burocrático, social, financeiro, familiar e, talvez, religioso. Melhor deixar como está e fazer vista grossa às inadequações.

No caso do concurso público, depois de alguns anos, os funcionários, mesmo detestando o que fazem, vêem-se sem escolhas por não quererem abdicar da estabilidade. Foram admitidos para executar “aquelas” atividades. Possivelmente, já se encontram casados, com filhos e com responsabilidades financeiras assumidas. Mudar de emprego, somente através de um novo concurso: “Estou velho(a) para isso, não vale a pena arriscar”. A grande maioria permanece: mergulhados em tarefas repetitivas, sem liberdades criadoras e desafios, esquivando-se dos programas de aperfeiçoamento – já que não ganharão nada mais com eles, tristes, entediados, deprimidos, reclamando da vida, trabalhando mal, como vasos de plantas sem graça espalhados pelas repartições. Contam os anos e meses para as aposentadorias e, quando chega a hora, não ficam nem mais um dia sequer. Anos e anos sem sentir qualquer tipo de amor pelo que faziam, sem terem conhecido o que é realização pessoal. Tomaram o atalho mais fácil e curto e pagaram o preço da estabilidade com metade de suas vidas torcendo para que as folhinhas do calendário acelerassem suas viradas.

Pior ainda para aqueles mais dinâmicos e com espíritos inovadores que pensavam em realmente agregar. Certamente, a emperrada e burocrática máquina pública não lhes permitiu agir criativamente, aniquilou suas energias e apagou qualquer chama de crescimento individual e proatividade. Então, perceberam que não lhes restava outra opção diferente da de se tornar mais um profissional medíocre, em nome da segurança.

Seguindo a minha missão de “destruidor de famílias”, como já fui nomeado por um leitor, creio que sinceras e sensatas conversas dos pais com os nossos aposentados funcionários públicos, quando ainda jovens, poderiam ter mudado os rumos de suas histórias: “Filho(a), você sabe que não tem vocação para esse trabalho, será infeliz. As instituições públicas apagarão o seu brilho, sua energia e não irão tratar-te como mereces. Não precisa ser mais um parasita de uma. Não se acomode e não busque essa segurança fácil, debaixo da qual você não poderá mostrar o quão talentoso é. Não terá liberdade para criar, desenvolver-se, escolher e mudar, pois os anos irão passar e se acomodará. Não tenha medo das incertezas e aprenda a conviver com as dúvidas Você é inteligente. Tenha personalidade. Aceite os desafios da vida, lute, erre, sinta dores, pois são indispensáveis à nossa evolução. Não busque o caminho mais fácil somente porque todos dizem que ter um emprego seguro é o caminho da felicidade profissional, pois isso é ilusão”. Possivelmente, devem ter-lhes aconselhado assim: “Vá sim, filho. É menos do que você é capaz, mas dá segurança.” Ou: “Você não gosta desse trabalho, mas o salário é ótimo e para sempre!”

Neste final em que apenas abordei o concurso público, deixarei as conclusões sobre outras possíveis semelhanças com o casamento ao encargo de cada um, de acordo com suas experiências.

O modelo de casamento romântico que conhecemos, que se resume à família nuclear e às suas regras, tem sido tácito patrimônio do Estado. Achamos que somos donos dos nossos casamentos da mesma forma que os nossos índios pensam que suas delimitadas terras lhes pertencem – possivelmente sejam menos inocentes do que imagino. Trata-se o casamento de valiosíssima ferramenta de domínio dos governos, como sempre o foi. Jamais foi uma escolha privada e independente, um livre-arbítrio consciente, não passando de uma induzida imitação cultural. Ao Estado os casais vêm servindo há séculos para que a ele proporcione crescimento, cuja manutenção é realizada através da dogmática educação dos filhos, fundamentais aos interesses da minoritária classe dominadora, possuidora de quase toda a riqueza da nação. Desvencilhar-se dessa arapuca, sem que se caia na marginalização social, demanda muita sabedoria, privilégio de bem poucos.

“Os espíritos medíocres orbitam em torno da rotina. Evitam sair dela e cruzar espaços novos; repetem que é preferível o mau conhecido do que o bom por conhecer. Ocupados em desfrutar o existente, cobram horror a toda inovação que perturbe sua tranqüilidade e lhes cause desassossego. As ciências, os heroísmos, as originalidades, os inventos, a virtude mesma, parecem-lhes instrumentos do mal…”

“A rotina, síntese de todas as renúncias, é o hábito de renunciar a pensar. Nos rotineiros, tudo é menor esforço. A debilidade enferruja suas inteligências. [...]Os rotineiros raciocinam com a lógica dos demais. Disciplinados pelo desejo alheio, encaixam-se em seu arquivo social e catalogam-se como recrutas nas filas de um regimento. São dóceis à pressão do conjunto, maleáveis sobre o peso da opinião pública que os achatam como um flexível laminador. Reduzidos a sombras vãs, vivem do juízo alheio; ignoram a si mesmos, limitando-se a crer como os demais crêem. Os homens excelentes, por outro lado, desdenham a opinião alheia na justa proporção com que respeitam as próprias, sempre mais severas, ou a de seus iguais.”

José Ingenieros

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