22. Conversa de botequim: dois processos de separação

Após meses sem postar um artigo, durante este final de semana participei de uma conversa com dois amigos que, em meu julgamento, mereceu ser registrada. Para preservar suas privacidades, chamá-los-ei, aqui, de Patrícia e Fernando. Chamarei os respectivos marido e esposa de Caio e Sandra. Decidi transcrever os assuntos debatidos em forma de diálogo com o intento de tentar manter a dinâmica de sua fluência.
Foi um ocasional e belo encontro, quando um homem e uma mulher, em situações exatamente opostas puderam ouvir e discutir, de forma nua e crua, as suas angústias e frustrações diante do término de seus casamentos, quando puderam ambos, de alguma forma, interagir com os pensamentos e ansiedades do “outro”.
Patrícia tem 35 anos e, por iniciativa própria, está pondo fim a um casamento de quatro anos, sem filhos. No entanto, ainda mora com o marido, pois precisam vender a casa para poder comprar o seu apartamento. Fernando tem 36 e, no dia anterior à conversa e após 14 anos juntos, foi informado pela sua esposa que ela queria a separação, quando também lhe solicitou que fosse para o apartamento vazio que ambos possuem. Assim foi feito. Possuem uma filha de 13 anos.
Além de estarem vivendo as mesmas situações das separações, os dois casos possuem outra semelhança: Ela afirma que muito pouco ou nada tem a reclamar do marido, que é um grande homem e que dificilmente encontrará parceiro parecido com ele. Eu conheço a esposa do Fernando e durante conversas anteriores minha com ela, dela ouvi o mesmo, sendo, segundo ele, isso também ressaltado na conversa derradeira do dia anterior.
Uma particularidade do caso do Fernando é que eles já haviam se separado há três anos, por iniciativa de sua esposa. Depois de muitos pedidos dele para que reatassem, ela atendeu-lhe e voltaram a morar juntos.
Eu já estava em um bar conversando com a Patrícia quando recebi a ligação do Fernando, dizendo que precisava conversar comigo. Convidei-o para que fosse até onde eu estava. Ele chegou, apresentei-os e Fernando começou a falar, visivelmente transtornado.

Fernando: Saí de casa. Minha esposa conversou comigo ontem, pediu a separação e que eu fosse, por enquanto, para o nosso apartamento vazio.
Eu: Aconteceu algo, algum problema ou simplesmente ela quer se separar?
Fernando: Não houve nada! Ela é louca. Nós nos damos muito bem e, do nada, ela vem com essa conversa. Tenho certeza de que ela está se precipitando, fazendo besteira. Amigo, sou um puta marido, parceiro. Ela vai se arrepender logo.
Eu: Fernando, não é a primeira vez que ela pede a separação. Por que acha que ela está se precipitando?
Fernando: Porque a gente se dá muito bem, quase não discutimos, temos uma filha e uma sociedade profissional juntos. Ela sabe que a amo. Está doendo muito.
Eu: E quem disse que tudo isso que você disse é suficiente para não se separarem? As pessoas insistem em achar que o fato de duas pessoas serem “legais, bacanas e íntegras” basta para que o casamento seja ótimo. Lembra que casamento é um relacionamento? Ou seja, para ele ser ótimo o relacionamento tem que ser ótimo. Duas pessoas ótimas que não dialogam profundamente jamais terão um relacionamento ótimo. É indispensável entendermos que casamento não é formado apenas por um homem e uma mulher. O casamento é um tripé: homem, mulher e como ambos interagem, o relacionamento em si. Perguntou a ela se te ama?
Fernando: Ela disse que não mais.
Eu: E por que você considerou um monte de coisas e não citou esse “detalhe”? Estou adorando esse ocasional encontro entre você e Patrícia. Ela também pediu a separação essa semana. O marido também não concorda e diz que ela está devaneando. Patrícia, fale sobre o seu marido.
Patrícia: Trata-se de um homem maravilhoso. Não tenho do que reclamar a respeito do Caio como companheiro e marido. Neste momento, preferiria que ele tivesse diversos e sérios defeitos, que fosse violento e me batesse, etc. Infelizmente, o total término da vontade de estar junto não é argumento aceito pela família, por exemplo, e nem por nós mesmos, pois, ingenuamente, juramos o “para sempre”. Porém, por ele ser uma pessoa muito íntegra, adiei muito mais do que deveria essa decisão e ela dói bem mais em mim. Apesar de estar muito segura do que estou fazendo, tenham a certeza de que estou muito mal, assim como sei que a Sandra está sofrendo. Não que eu me sinta uma derrotada e responsável pelo casamento, do que a sociedade tenta convencer as mulheres. Dói porque sei que ele está sofrendo, que é dependente e inseguro como a maioria dos homens, e dói porque desde o início eu sabia que não deveria ter começado essa relação. A gente se ilude, apaixona-se e fica cego devido à ansiedade de constituir um lar e de sair do jugo dos pais.
Fernando: Se ele é tão bacana, por que está se separando?
Patrícia: Isso é pouco. Não o amo mais. Eu sou o braço forte em casa e isso me cansou. Quero alguém que também decida, com identidade, para que eu fique tranquila quando não puder decidir. Quero um homem, não um filho. Não o enxergo mais como um homem que me atrai sexualmente. Não tenho mais vontade de dividir o meu amor sexual com ele. Admiro-o apenas como uma amiga que aplaude seu caráter e bondade.
Eu: Fernando, iniciativas como as da Sandra e Patrícia são muito mais comuns do que você imagina. Olhem que oportunidade interessante. Percebam essa conversa como um encontro da Sandra com o Caio. Não desconsiderando as particularidades de cada casal, são situações muito semelhantes. Meu amigo, tenho uma notícia não muito agradável para lhe dar: a Sandra não vai voltar atrás; ela sabe o que está fazendo. Tenha a certeza de que a decisão não foi precipitada. Ela já vem pensando sobre isso faz muito tempo.
Fernando: Baseado em que você diz isso?
Eu: Amigo, quando um cônjuge percebe que não quer mais o casamento, ele adia demais externar a sua decisão. Essa espera normalmente dura anos, podendo nunca ocorrer. Não tenha dúvida de que muitos casais ficam velhos juntos sabendo que não deveriam estar casados. Há muita coisa em jogo em uma separação: os filhos, interferências da família, questões culturais, religiosas, patrimoniais e financeiras. Você consegue separar a mulher Sandra que você diz amar da Sandra gestora da “cômoda” estrutura familiar que vocês dois construíram: a filha, a casa e o negócio em pleno crescimento que vocês dois possuem juntos?
Fernando: É difícil mas eu sei que a amo.
Eu: Mesmo? E por que você sai tanto sozinho desejando outras mulheres? Por que mente tanto para ela? Não que eu considere que se existe sexo fora do casamento é porque a relação está mal. Curiosidades podem ocorrer. Mas será que não se vê mais como um sócio de uma empresa falida chamada casamento e que nela trabalha há quatorze anos, não querendo fechá-la mesmo que ela esteja no vermelho? Morar sozinho é abrir seu próprio negócio, sem sociedade. Tem medo de ser o administrador de sua própria vida? Por que acha que o sexo entre vocês, como já me disse, tem sido tão pouco frequente? Por que fica tanto na rua, tomando sua cerveja, sem ela? Será que você não está criando suas verdades para fugir de uma realidade?
Fernando: Mentira faz parte do casamento. Você com essa sua conversa de verdades. Isso não existe, Super Sincero.
Patrícia: Pensar assim é um grande erro. Homem e mulher pensam de formas bem diferentes a respeito disso. Se depender de você, vai morrer mentindo para ela e tendo suas aventuras sexuais sem que isso interfira na rotina do seu casamento. A mulher não consegue manter esse estado mentiroso por muito tempo. Quando o faz é porque não tem como se sustentar sozinha e sofre muito por isso. Filhos pesam demais nessa decisão também. Ainda bem que não são os meus casos.
Eu: Patrícia, conte para ele quando você realmente percebeu que queria se separar e fale sobre suas aventuras desse ano.
Patrícia: Percebi que queria me separar há quase dois anos, mas não tinha como, pois caí na besteira de, a pedido dele, quando nos casamos, parar de trabalhar. Estava apaixonada e cedi ao seu pedido. Hoje me arrependo muito. Mesmo assim, quando percebi que o casamento começava a não ficar bom para mim, insisti e comecei a me estruturar profissionalmente para poder sair da relação, quando quisesse. Hoje estou mais tranquila. Mas creio que não era apenas a questão financeira. As mulheres se cobram muito e se acham responsáveis pela manutenção da família. Existe muita cobrança da família, social e cultural e nos deixamos ser dominadas por elas, esquecendo de nós mesmas. Mas existem muito mais mulheres mantendo casamentos por dinheiro, segurando faixas de esposas felizes, do que vocês homens imaginam. Porém, além da questão financeira, muitas não se separam por pena dos maridos, vendo-os mais como filhos do que como homens; em muitos outros casos, existe o medo de suas reações violentas. Hoje penso mais em mim e em minha felicidade. Ou seja, a decisão foi comunicada há dias, mas a vontade é antiga. Acho que com a Sandra ocorreu o mesmo.
Eu: Fernando, entenda que se aventurar sexualmente fora do casamento e pedir a separação não são decisões impensadas e precipitadas da mulher. Quando a mulher decide se aventurar fora do casamento, antes ela já sofreu muito com os conflitos dessa vontade, o que não ocorre com o homem. Quando ela toma essas decisões é porque já vinha pensando e buscando criar a melhor oportunidade para tal. Por isso, afirmo que a Sandra sabe o que está fazendo ao lhe pedir a separação.
Fernando: Mas, caralho, ela nunca me deu sinal de que queria se separar! Fui pego de surpresa.
Patrícia: Você acha que ela não deu sinal algum. Quando conversei com o Caio essa semana, ele disse o mesmo. E tenho certeza de que o que mais fiz foi sinalizar que eu não estava feliz. Quer sinal melhor do que estarmos em um restaurante ou bar e não termos o que conversar, nenhum assunto interessante aos dois? Saímos para dizer que saímos, que quebramos a rotina. Continuar o que? Basta observar, está tudo na cara. Transamos esporadicamente, não tenho vontade, e quando acontece não tem ardor algum. E quando isso acontece, não adianta ver filmes eróticos juntos, usar fantasias de freira ou colegial, comprar todo o “sex shop”, ir a casas de “swing”. Isso tudo é ilusão e não funciona. Não modifica nada a falta de desejo.
Eu: Fernando, infelizmente, o tédio, a falta de calor a dois e a infelicidade estampada na cara da parceira não são considerados sinais de uma possível separação. Afinal, crescemos aprendendo que “casamento é assim mesmo”. Já ouviu alguém falar em felicidade real entre os cônjuges como um valor a ser buscado no casamento? Encheram o casamento de valores morais, mas não se fala em felicidade como meta. Os homens, principalmente, não querem enxergar a insatisfação de suas esposas. Limitam-se a afirmar que elas são complicadas e que nunca estão satisfeitas. Quando a mulher toma coragem e se declara infeliz, essa infelicidade é tratada como frescura. Quantas vezes, nos últimos anos, pronto para ouvir qualquer resposta, você perguntou à Sandra se ela estava feliz, instigando a verdade e um diálogo franco? Suponho que nenhuma.
Fernando: Nenhuma.
Eu: Patrícia, você acabou não falando sobre suas experiências com outros homens. Aproveite e fale também por que decidiu pedir a separação agora.
Patrícia: Começou a me dar vontade de conhecer outro homem. Perdi o tesão pelo Caio e a vontade de dar e receber dele carícias. O prazer da companhia deixou de existir. Isso, para a mulher, é muito complicado. Então, aconteceu pela primeira vez em abril. Eu já pensava nisso há tempo. Mas não fazia por diversas razões que me desencorajavam. Então, arrumei força e decidi conhecer o sexo pelo simples prazer do sexo, apenas para gozar, já que, sendo casada, achava que não fazia sentido buscar envolvimento. Saí com cinco homens. Não foram experiências ruins. Posso dizer que foram, sexualmente, boas. Mas sempre foi apenas sexo. Inicialmente, eu pretendia levar adiante essa situação. Mas com o passar do tempo percebi que não era isso de que eu precisava. Esses encontros não estavam resolvendo nada o meu problema. Percebi que o que eu desejava e ansiava mesmo era pela minha liberdade para poder amar outro homem ou até mesmo para ficar sozinha, o que também adoro e preciso. Consegui enxergar que eu não precisava de um sexo diferente, mas sim de carinho, de me sentir envolvida e ele envolvido, o que deixou de existir em meu casamento. Então, essa semana pedi a separação.
Eu: Fernando, essa é uma grande diferença entre o homem e a mulher. O homem adora sexo e insiste em afirmar isso. A mulher gosta do sexo em si menos do que o homem e ela mesma pensa e afirma gostar. A mulher é um ser mais próximo do amor e por isso ela não consegue ficar mentindo para o outro e para si mesma por muito tempo. Isso a agride demais. Ela até pode manter seus encontros sexuais por longa data e não pedir a separação. No entanto, sem dúvida, vê-se em constante conflito e o sentimento de medo a persegue. Para o homem, isso é normal e não sente nada disso. Por isso é tão comum a mulher pedir a separação e o homem não aceitá-la, como você está fazendo. Não sei e não nos interessa se a Sandra saiu com outro(s) homem(ns). Mas suponho que ela saiba o que está fazendo. Para você, homem, é muito cômodo manter sua estrutura familiar mesmo dentro de um casamento morno/frio, tendo suas aventuras sexuais quando deseja, pois isso não o incomoda. Para a mulher isso é bem mais complicado, por diversas razões. Uma delas é que a mulher quer realmente amar e ser amada. O homem não se preocupa tanto com isso e, quando chega a se preocupar, não externa.
Fernando: Mas eu amo a Sandra, cacete!
Patrícia: Você a ama mesmo ou não seria dependência presencial, medo de ficar sozinho?
Eu: Não precisa responder agora, pois sei que a resposta não é fácil. Mas reflita: consegue descolar a mulher e fêmea Sandra de toda estrutura familiar que construíram? Você ama mesmo a Sandra e não quer a separação por isso ou está considerando a saudade que vai sentir da filha, as implicações financeiras e patrimoniais da separação, as explicações que terá que dar às famílias e amigos, a “vergonha” de admitir que foi deixado pela esposa, etc?
Fernando: Não é fácil dizer qual a parcela que cada consideração dessa contribui para eu não aceitar a separação. Mas, certamente, todas contribuem.
Patrícia: Você acha que ama mesmo a Sandra?
Fernando: Sim.
Patrícia: Então não dificulte a separação. Saia como homem desse casamento e não como uma criança pirracenta que grita, abre os braços e sai derrubando tudo quando não tem o que quer. Deixe-a ser feliz. Querer que ela fique ao seu lado fingindo estar feliz não é um gesto de amor, mas de puro egoísmo.
Eu: Eu e Patrícia já chegamos à conclusão de que o Caio não a ama coisa alguma, apesar de repetir isso a toda hora. Depois que ela pediu a separação, ele tirou o celular dela, os cartões de crédito, o carro, etc, e está complicando o máximo possível sua vida. Agressões verbais e comentários irônicos têm sido constantes. Que amor é esse? O seu declarado amor transformou-se em atitudes que denotam ódio. A maior prova de amor que você pode dar à Sandra é respeitar sua decisão e torcer para que ela seja feliz. O pedido de separação dela é uma prova de que ela respeita você e a si mesma. Se ela não estava feliz, você também não estava. Ela estava tolerando o casamento e sabia disso, enquanto você estava se enganando, achando que estava tudo bem e não querendo enxergar o que era patente.
Fernando: Caramba, gente! Para falar a verdade, eu concordo com quase tudo que estão falando. Mas está doendo aqui. Quando é com você é foda. Nesse momento não me interessam essas realidades.
Eu: Entendo, Fernando. Deve doer mesmo, mas é importante você identificar de onde vem essa dor. Você está sentindo a dor da perda, da rejeição. Mas é necessário que perceba exatamente o que está perdendo e o que está ganhando. Não pode brigar pela manutenção de algo que não está bom apenas por medo do novo que está por vir. Esse é o imenso erro que os casais cometem: ou não respeitam a vontade e decisão do parceiro ou insistem em um relacionamento falido por medo de um futuro incerto que terá que ser recomeçado.Um outro detalhe: Patrícia, você pode dizer que o Caio conhece bem você, a mulher Patrícia?
Patrícia: De forma alguma. Ele conhece minha rotina, minhas manias, algumas qualidades e defeitos aparentes que me permito mostrar. A minha essência, minha alma, o que exatamente penso sobre a vida e sobre os relacionamentos ele não conhece. Nunca conversamos de peito aberto e sem medo de julgamentos sobre liberdade, sexualidade, desejos, fantasias, liberdade, ciúme, etc. Quando conversávamos, pois hoje mal conversamos, eu me limitava a falar o que não iria polemizar a relação. Aliás, sempre foi assim em todas as minhas relações. Estou cansada disso.
Eu: E por que você não provoca essas conversas? Por que não se apresenta?
Patrícia: Eu errei. Hoje não há mais espaço para tentar mudar a imagem que ele tem de mim. Seria um choque muito grande. Das poucas vezes que tentei apresentar a Patrícia a ele, ele se chocou e o clima não ficou bom. Sei que sou a mais forte da relação. Eu deveria ter feito tudo diferente desde o início. Mas agora é tarde. Em meu próximo relacionamento, farei tudo diferente. O próximo saberá exatamente com quem estará lidando. Não terei pudor ou medo de não ser aceita como mulher.
Eu: Esse é o ponto. O diálogo franco desde o início é indispensável para que não haja surpresas e o cansaço causado pela não assunção de suas verdadeiras identidades. Essa falta de conversa, que tem por objetivo a adequação do casal aos padrões morais, causa rapidamente o tédio e não permite a aproximação real do casal. Nesse caso, as duas almas não se tocam e, consequentemente, não haverá espaço para o surgimento de um amor verdadeiro. Acabam fazendo sexo durante anos sem terem intimidade ou cumplicidade alguma. Patrícia, você acha que conhece bem o Caio?
Patrícia: Não. É muito engraçado. Talvez ele até pense muita coisa parecida comigo, queira muita coisa que eu quero. Mas como sempre tivemos medo de nos apresentar de verdade, acabamos sem conhecer os nossos pontos em comum e onde somos realmente diferentes.
Eu: Isso é o que ocorre com a grande maioria dos casais. Fernando, você acha que conhece muito bem a Sandra?
Fernando: Claro! Foram quatorze anos juntos.
Eu: Isso não garante nada. Em um relacionamento de um mês pode haver muito mais intimidade, cumplicidade e conhecimento mútuo do que um de vinte anos. O que importa não é a quantidade de noites que dormiram juntos e quantidade de vezes em que conversaram sobre os filhos e problemas da casa, mas sim as profundidades das conversas, a predisposição de ambos para se fazerem ser conhecidos um pelo outro, sem medo de serem ou não aceitos, o desnudamento mútuo das almas. Quantas vezes vocês dois já ouviram de homens e mulheres que, depois de separados, pensavam que conheciam seus ex?
Fernando: Muitas.
Patrícia: Inúmeras.
Eu: Entendam que não estimulo casamento, separação nem relação extraconjugal. Defendo apenas o clima de liberdade para diálogos francos e relacionamentos mais leves e com menos surpresas. Esses cansaços, tristezas e decepções recorrentes nas relações podem mudar ou no mínimo serem bem atenuados através de uma aproximação real sem mentiras e omissões para si mesmo e para o outro. Uma consideração importante que ainda não conversamos é que, quando a mulher pede a separação, o homem insiste em afirmar que ela tem um amante. É um equívoco masculino generalizado. Dificilmente a mulher se separa porque alguém a está esperando. Ela sai tão frustrada e madura da relação que, por um bom tempo, tem dificuldade de se relacionar, diante dos homens que encontra pela frente, com as mesmas conversas que ouviu quando começou a namorar seu ex. Com o homem é bem diferente. Sua dependência da figura feminina ao lado, independentemente da qualidade da relação, é tão grande que raramente ele pede a separação para morar sozinho. Quase sempre tem uma amante o esperando.

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