Ao longo dessa pequena jornada em que venho observando, conversando e refletindo sobre os recorrentes problemas conjugais e constantes insucessos na busca do amor entre os casais, cada vez mais tem aumentado a minha convicção de que, dentro da nossa cultura e com as criações que, em geral, os pais dão aos seus filhos, é praticamente impossível o início de um entendimento lúcido do que seja o amor, nas idades em que, normalmente, homens e mulheres casam-se pela primeira vez. No entanto, baseado na conclusão de que as mulheres são mais maduras e de que existe grande defasagem entre elas e os homens, a respeito dos preparos para o empreendimento amar e das capacidades de compreensão do que seria o amor verdadeiro, neste artigo abordarei apenas os aspectos femininos dessa questão.
As uniões entre homens e mulheres em tenras idades foram necessárias desde o início da humanidade e assim se mantiveram até bem pouco tempo, a fim de gerar o máximo possível de mão-de-obra, caçadores, guerreiros e soldados para as famílias, aldeias e Estados. As mulheres eram verdadeiras parideiras, sendo utilizadas para tal fim do início ao final de sua vida fértil.
Hoje em dia, as mulheres não se casam tão cedo quanto em épocas mais remotas. Já não existe mais a necessidade de elas terem o maior número possível de filhos, sendo o número desses, nas famílias modernas, normalmente fixados em apenas um ou dois, no máximo três – quantidade que já tende a ser considerada um exagero, no ocidente. Logo, biologicamente falando, não há necessidade alguma de a mulher casar-se com 20 anos de idade, por exemplo. Se isso ocorrer com trinta, terá tempo de sobra para ter um ou dois filhos.
A partir do final do século XIX, por diversas razões e gradualmente, algum envolvimento afetivo (que deram o nome de amor) e o desejo sexual mútuo passaram a ser aceitos, inseridos, e almejados, como necessários à vida a dois. Até então, amor entre homem e mulher casados era sentimento desconsiderado e praticamente proibido. Apenas a título de curiosidade, o beijo na boca entre marido e esposa começou a existir no mesmo período.
Já falamos, em oportunidades anteriores, que, normalmente, os pais não ensinam os seus filhos a amar de forma isenta de interesses dos mais diversos possíveis, o que é totalmente reforçado pelos meios de comunicação de massa. A maioria dos filhos cresce sem exemplos e orientações lúcidas, em seus lares, sobre o que seria o amor verdadeiro e o respeito às suas próprias individualidades e às dos que os cercam. Ainda, não são alertados sobre as armadilhas do amor romântico. Dessa forma, como podem mulheres de 20 a 25 anos, que sempre moraram com seus pais, que não foram estimuladas ao autoconhecimento, estarem certas de suas opções por se casar, assim como das escolhas dos companheiros?
Defendo que, antes de se casarem, todos os jovens deveriam morar sozinhos durante alguns anos e jamais saírem das casas de seus pais diretamente para a vida a dois. Sabemos que tal prática é economicamente inviável para a maioria das famílias. Entretanto, seria uma etapa de grande importância para a formação das personalidades e que propiciaria aos homens, por exemplo, tornarem-se menos dependentes das mulheres, nos casamentos. Muitos casais não se separam e mantêm seus relacionamentos infelizes, dentre várias razões já comentadas em outros artigos, devido ao medo de ficarem sozinhos. As experiências de morarem sós, anteriores ao casamento, transmitiriam mais segurança às pessoas e preparariam melhor cada cônjuge para o início de uma nova vida sozinho.
Quero dizer, então, que a sustentação dessa necessidade de morar sozinho alguns anos, antes de se casar, tem como fim facilitar a separação? Não, apesar de, de fato, torná-la menos dolorosa, sendo uma importante conseqüência de tal experiência. Porém, o objetivo principal é proporcionar ao homem e à mulher oportunidade de melhores autoconhecimentos e menores dependência e carência de alguém ao lado “cuidando” deles. O autoconhecimento passa pela liberdade de pensar e agir e de, assumindo seus riscos, sermos os únicos responsáveis pelos nossos atos e escolhas. Sem essas condições, torna-se imensa a dificuldade de se saber responder quem sou e o que quero, de fato, de minha vida. Ao passarmos a ter uma boa noção dessas respostas, que não são conseguidas facilmente, passaremos a expressar com maior lucidez o que pensamos, assim como teremos maiores maturidades para responder: Quando casar? Com quem casar? Que qualidades realmente são imprescindíveis na pessoa que estiver ao meu lado? Que tipo de relacionamento desejo? Até onde estou disposto a ceder e a negociar alguns aspectos de minha liberdade?. Conscientemente respondidos tais questionamentos, ao contrário do que se pode pensar, o indivíduo estará bem mais preparado para dividir um teto com alguém, sem que sua felicidade seja afrontosamente colocada em jogo. Consequentemente, a relação terá maior qualidade e durará mais, pois começou com escolhas acertadas e não cheias de ilusões e visões turvas da realidade.
Entretanto, morar sozinho garantiria a aquisição dessa visão lúcida dos relacionamentos e seria a única possibilidade de se atingir um razoável autoconhecimento e de tornar uma pessoa crítica e lúcida? A minha resposta é que seria muito desejável mas não suficiente. Essa experiência necessita ser antecedida de orientações verdadeiramente amigas e sensatas, em casa, ao longo do crescimento do indivíduo. Porém, mesmo sem ela, acredito que a forma com que a criança e depois adolescente são criados pelos pais poderia dar importantíssimo impulso nesse processo. Infelizmente, essa não é a realidade vigente na grande maioria dos lares, pois os pais que criam os filhos “para o mundo” são exceções.
O que seria criar os filhos para o mundo? Não privá-los de conversas sinceras e de conhecer realidades com as quais terão contato quando começarem a ter parte de suas vidas fora de suas casas e depois que se casarem. Trata-se de travar o mesmo diálogo franco cuja necessidade defendo veementemente entre os casais. Muitos pais insistem em pensar que dar uma boa educação aos filhos limita-se a lhes garantir bons estudos, boas maneiras e inseri-los perfeitamente na moral social. Estamos cansados de conhecer pessoas profissionalmente prósperas, educadas e com caráter ilibado (comportamento social inquestionável) que são deprimidas, tristes, agressivas, inseguras e emocionalmente dependentes. Logo, faltou algo em suas educações. Esse algo foi o preparo para lidar com as realidades da vida, as suas realidades, assim como daqueles que com elas irão se relacionar. São pessoas que apenas conhecem o pronome EU. Os demais só existem para servi-las e atender às equivocadas expectativas que lhes foram passadas quando mais novas.
De um modo geral, uma mulher de vinte e poucos anos, absolutamente, não está preparada para casar, pois não possui maturidade para conhecer o que é amar e o que é ser amada. Infelizmente, sua mãe se omite de lhe contar a realidade do seu próprio casamento, assim como também não reforça e ilustra, como exemplo, através dos de suas amigas com as mesmas agruras. O atenuante é que, por sua vez, ela não tem referência de outro tipo de relação mais saudável. Mais uma vez, entra em cena a célebre frase “casamento é assim mesmo”. Acredito que, se a mãe fosse mais honesta com sua filha, não festejaria com as tias ao primeiro comunicado dela de que foi pedida em casamento, tão nova e pouco sabendo sobre relacionamentos. No fundo, essa mãe sabe que está sendo omissa e que pouco ou nada ensinou à filha sobre a vida real. Bem em seu íntimo, mesmo que não admita para si mesma, essa mãe sabe que é grande a probabilidade de sua cria passar pelas mesmas angústias conjugais pelas quais está passando. Mas nada faz. Mesmo assim, festeja. Menos uma boca para alimentar. Menos uma despesa. Menos uma responsabilidade.
É bem comum ouvirmos: “Cumpri meu papel. Meus filhos possuem curso superior e estão casados”. Trata-se de uma visão muito simplista de responsabilidade, de um covarde equívoco.
Então, qual seria a idade ideal uma mulher se casar? Depende. Na visão dos pais, se for objetivado livrarem-se de uma responsabilidade e que diminuam as despesas da casa, de 18 a 25 anos. Se dinheiro não for problema, mas se eles desejam pelo menos um neto para diminuir o tédio da casa, até 35 anos seria indicado (antes seria melhor, para minimizar logo o fastio). No entanto, se o mais importante é que a filha seja realmente feliz e que tenha um relacionamento leve e com qualidade, não existe idade ideal para isso. No entanto, regra geral, antes dos trinta, isso se daria de forma bem mais difícil. Se a felicidade for realmente levada em consideração, o indicador passará a ser o autoconhecimento, as experiências e consequente desenvolvimento da maturidade psicológica, processo no qual os pais têm imensa responsabilidade. Razoavelmente atingido esse estágio, a mulher terá bem melhores condições de identificar e escolher o homem que melhor se encaixe em seu perfil, aquele que saiba e queira amar exatamente o ser e a mulher que foi descoberta depois desse imprescindível processo de busca da resposta à pergunta “quem sou?”.
Outra questão que penso ser importantíssima na busca do entendimento da própria identidade é que esta se perde quando existe dependência financeira do homem, por parte da mulher. A manipulação e criação dessa sujeição são travestidas da ideia romântica do “cuidar melhor da casa e dos filhos”, quando, na verdade, o que esta esconde é a insegurança masculina que provoca a necessidade de maior controle sobre os passos da esposa, assim como o conforto de que ele é o “dono da situação”. Claro que não podemos atirar pedras apenas nos homens, pois sabemos da existência do bando de mulheres preguiçosas que adoram a ideia de serem dondocas. Vou me abster, aqui, de expressar o que realmente penso delas, pois tenho certeza de que suas próprias consciências já as julgam e que, mesmo lindas e sorridentes, siliconadas, em seus carrões e vestindo grifes, elas sofrem muito.
São inúmeros os casos de esposas que se deixam cair nessa armadilha e que depois de alguns anos passam a lamentar copiosamente o adornado caminho que trilharam rumo à arapuca. De repente, vêem-se como um pássaro preso ao visgo, sendo maldosamente observado, de longe, pelo menino caçador.
Ninguém é feliz em cativeiro. Animal algum. A dependência financeira é uma prisão. Dependendo do quanto a mulher gostaria de mudar esse quadro, com o passar do tempo, passa a odiar a si mesma pela sua conivência, ao longo dos anos, com a situação, assim como, em seu íntimo, também odeia o seu carcereiro.
Pais e maridos maduros e sensatos, que amam de verdade, estimulam as independências financeiras das filhas e esposas. Suas felicidades estão e estarão diretamente ligadas ao “ter escolha”. O prazer se esvai em qualquer situação em que não haja opção… mesmo que “estar ali, fazendo aquilo” seja bom.
Gostaria de ressaltar que, em meio às mulheres que tenho conhecido e com quem tenho conversado, ao longo de alguns anos, as mais felizes, maduras e psicologicamente bem resolvidas foram aquelas cujos pais, segundo elas mesmas, não se eximiram de lhes apresentar a vida como ela é. Foram pais amigos, orientadores e educadores, ao invés de arbitrários e controladores, que confiaram mais do que desconfiaram, que respeitaram e não se acharam donos dos filhos. Com isso, não as impulsionaram a se casar o mais cedo possível para saírem dos seus jugos repressores. Vale ainda salientar que, outras mulheres que poucas atenções tiveram de seus pais, filhas de casamentos problemáticos ou desfeitos, que se viram sozinhas no mundo, precisando “se virar”, são bem mais adultas, maduras, decididas e felizes do que várias que foram paparicadas e intensamente “protegidas” pela família. Casos que merecem reflexão e que passam largo de serem exceções.
O filósofo alemão Herbert Marcuse, em seu livro Eros e a Civilização, diz-nos o seguinte:
“ A livre gratificação das necessidades instintivas do homem é incompatível com a sociedade civilizada: renúncia e adiamento da satisfação constituem pré-requisitos do progresso. Disse Freud: “A felicidade não é um valor cultural”. A felicidade deve estar subordinada à disciplina do trabalho como ocupação integral, à disciplina da reprodução monogâmica, ao sistema estabelecido de lei e ordem. O sacrifício metódico da libido, a sua sujeição rigidamente imposta às atividades e expressões socialmente úteis, é cultura.”
Amor e prazer verdadeiros são sentimentos incompatíveis com uma cultura que busca o tempo todo o progresso econômico. Trata-se de uma equação de difícil solução, pois o interesse coletivo (progresso social, tecnológico e econômico) caminha em direção oposta aos interesses individuais (liberdade e amor). Somos induzidos a trocar o amor e a liberdade por uma vida em cativeiro, a fim de que sejam atendidos os anseios de uma sociedade, com o apoio da Igreja, manipulada por gigantescas empresas. Os políticos são apenas seus instrumentos. Freud estava certíssimo: a felicidade não é um valor cultural.
Para terminar, acredito ser uma crueldade o que fazem com mulheres que acabaram de sair da adolescência, ao serem cobradas, estimuladas e impulsionadas para o casamento. Os resultados todos nós sabemos. Pergunte a uma mulher, como exemplo, com idade por volta dos quarenta anos, que se casou em torno dos vinte, se ela voltaria e faria tudo novamente. Mas solicite que não considere os filhos, se os tiver. Peça para somente a MULHER responder… não a mãe. Senão, como mãe, certamente ela responderá usando a conhecida frase “meus filhos são minha vida”. E a mulher que tanto desejou amar e ser amada por um homem? Não nasceu? Quando morreu? Ou sofreu um aborto induzido? Fico com esta última opção.
Mamãe, tenha coragem e demonstre o seu amor pela sua filha ao não alimentar o sonho do casamento romântico, baseado em ilusões novelísticas. Você, preocupada com ela e não com o que esperam dela e, calcada em seus próprios equívocos, seja amiga de verdade e tente orientá-la a respeito de como iniciar e construir um relacionamento encantador. Isso diminuirá a probabilidade de o príncipe encantado virar sapo e depois se virem com alguns sapinhos para criar. Se você se contenta com ter uma filha socialmente “bem casada”, pode ter a certeza de que isso não a satisfará. Já parou para pensar que ela deseja ser feliz, da mesma forma que você quis ser? Que tal, nesse sentido, ajudá-la? Nos dias de hoje, os filhos precisam muito mais de amizades francas e orientadoras do que dos instintos paternos e maternos.
Os pais não poupam esforços para investir nas educações dos filhos, a fim de que estes tenham profissões mais prósperas e rentáveis do que as suas. Que tal se preocuparem com formar maridos e esposas mais felizes do que são em seus próprios casamentos?

