24. Amor e traição

Após mais de duas dezenas de artigos falando sobre relacionamentos, amor e liberdade, decidi, finalmente, abordar esse assunto que inferniza as vidas de muitos casais: a traição – a mais grave quebra do pacto do amor romântico, dentro de uma relação. Não apenas a sua execução em si, mas a simples suposição e imaginação de sua existência têm sido motivo, há séculos, de brigas, separações, violências e mortes. Não existe uma telenovela sequer em que não existam traições conjugais, sendo estas, normalmente, o assunto central de todos os dramas. Trata-se de vasta matéria que, se fôssemos fazer uma abordagem mais completa sobre a mesma, permeando todas as ciências que a envolve – basicamente Psicologia/Psicanálise, Sociologia, Filosofia e Economia, o resultado poderia ser um livro de 500 páginas e, possivelmente, com assuntos ainda pendentes.

Porém, antes de entrarmos no assunto central, obedecendo, em termos de extensão, às limitações de um artigo, vamos fazer uma análise do amor romântico. Apesar de eu já tê-lo feito anteriormente, usarei um viés diferente, baseado em novas leituras e experiências pessoais. Para aquele que desejar se aprofundar no assunto – o que recomendo, fornecerei, ao final, bibliografias como suporte a essa pesquisa.

O psicanalista americano Robert A. Johnson, autor da trilogia psicanalítica He, She e We, sustenta, neste último livro, que a busca do amor romântico nada mais é do que a projeção no outro de nossa perdida psique, a busca do nosso “self” na pessoa amada, devido ao fato de valores como o sentimento, a afinidade, a alegria real e a consciência da necessidade de vivermos a integridade da alma terem sido expulsos de nossa cultura pela nossa mentalidade patriarcal. Isso se encaixa perfeitamente no “quero alguém que me complete”, ou “sem estar apaixonado, a vida fica sem graça e perde o sentido”. Bem além de uma simples e comum necessidade de se apaixonar e viver uma intensa paixão, essa ansiedade ocidental retrata um indivíduo com alma pobre e doente, decorrente da incapacidade de acesso ao seu Eu e do entendimento de suas reais necessidades espirituais. Como iremos respeitar e atender às expectativas de alguém que não conhecemos e com o qual não conversamos? Se eu não tenho acesso ao meu âmago e se não sou capaz de ouvir seus clamores, perco a convicção de minha identidade, passando a ser o que quiserem que eu seja, contanto que me ofereçam proteção ou obediência, variando de pessoa para pessoa. Queremos ter fé em tudo e em todos; passeamos pelas religiões e seitas em busca de uma resposta para o vazio. Agarramo-nos ora aos religiosos oportunistas, ora ao sucesso profissional e ganho de dinheiro, com um fanatismo ausente de críticas e ponderações. Em variados momentos místicos de nossas vidas, todas as entidades estão certas e nos fornecem variados nortes para alcançarmos a paz interior; quando o nosso Eu deseja se pronunciar, coros – inclusive com a nossa voz – mandam-no se calar, pois acham que ele é puro devaneio herético e jamais merecedor de atenção. Dessa forma, se a totalidade está doente e se comporta uniformemente, torna-se bem mais difícil perceber que todos estamos tomados por essa pandemia romântico-capitalista e pela falta de identidade que nos enfraquece e anula. Assim sendo, a pessoa sã passa a ser considerada a carente de tratamento, pois ser “saudável” é ser normal, triste, desiludido, impotente, inerte, covarde, frustrado, permissivo, vazio, ansioso, deprimido, neurótico, etc.

Para defender sua ideia, Johnson faz uma profunda e coerente análise do medieval mito romântico de Tristão e Isolda, que termina com as mortes de ambos, um ao lado do outro. Criada no século XII, tal história vem sendo repetida e cantada. com seus estilos atualizados de várias formas por trovadores, escritores, dramaturgos e poetas. Trata-se da gênese do nosso conhecido amor romântico ocidental que arrebata e nos faz sentir plenos, faz tudo ser menos importante do que ele, faz-nos cometer loucuras e nos sentir os mais felizes dos seres da Terra. Interessantemente, essa sensação nunca dura muito tempo e, como qualquer droga pesada que nos tira do mundo real, após o seu efeito ir embora, provoca uma terrível e dolorosa ressaca. O amor romântico foi modificado e adaptado de acordo com as necessidades, através dos tempos – não as individuais, mas sim as sociais. Porém, sua essência continua a mesma, cravada em nossa cultura e entranhada nos relacionamentos do mundo ocidental: encontrar o verdadeiro sentido da vida em outro ser humano.

Segundo o mesmo autor, “o amor romântico não é apenas uma forma de “amor”, mas é todo um conjunto psicológico – uma combinação de ideais, crenças, atitudes e expectativas. Estas ideias, frequentemente contraditórias, coexistem no nosso inconsciente e, sem que percebamos, dominam nossos comportamentos e reações. Inconscientemente, predeterminamos como deve ser um relacionamento com outra pessoa, o que devemos sentir e mesmo o que devemos lucrar com isso”.[...] Com a típica presunção ocidental de estarmos sempre com a razão, achamos que o nosso conceito de amor, o amor romântico, deva ser o melhor. Presumimos que, comparado a este, qualquer outro tipo de amor entre homens e mulheres seria frio e insignificante. Mas se formos realistas, teremos que admitir que o nosso enfoque de amor romântico não está funcionando. [...] Culpamos os outros por nos terem falhado; não nos ocorre que talvez sejamos nós que precisemos modificar nossas próprias atitudes inconscientes – as expectativas que alimentamos e as exigências que impomos aos nossos relacionamentos e às demais pessoas.”

Nossa sociedade entrou em um ciclo vicioso: queremos poder e segurança; dessa forma, induzimos o coma da potencialidade intrínseca ao ser humano de amar verdadeiramente, capacidade espiritual esta que já nasce com ele. Essa mesma incapacidade de enxergar o outro sem expectativas e distorções para que seja genuinamente amado e, da mesma forma, desnudarmo-nos para que sejamos amados, faz aumentar, em alguns, a necessidade de poder para dominar; em outros, a insegurança para ser subjugado. No entanto, em ambos os casos, todos são tomados por sentimentos destruidores da individualidade e decorrentes da impotência de se conhecer o amor em seu sentido mais pleno.

Acerca do ser humano homem e ocidental, a este Johnson faz uma alusão com a qual concordo plenamente. Devido ao patriarcalismo e incessante busca de poder, o macho perdeu o contato com o lado de sua psique simbolicamente tido como feminino, sendo ele o “impulso de poder que se descontrolou sem a força equilibradora do amor, do sentimento e dos valores humanos. Ele procura apenas o poder, destrói tudo que é humano e terno; fica reduzido à brutalidade. [...] Se a psique masculina tenta viver sem a sua “outra metade” – o lado feminino, então o masculino se torna desequilibrado, doente e, finalmente, monstruoso”.

Por outro lado, a nossa cultura também fez com que as mulheres fossem educadas para considerar que apenas as características masculinas – suas atividades, o raciocínio, poder e sucesso – são dignas de admiração e de idealização, em detrimento do lado feminino verdadeiramente belo da vida. Com isso, muitas foram criadas e estimuladas a ter um predominante sentimento de inferioridade. Esqueceram-se dos seus lados divinos e intuitivos de real respeito e amor ao próximo e tornaram-se partidárias da cultura e presas da muito bem projetada e engenhosa arapuca chamada amor romântico.

No amor romântico, Johnson associa o condicionamento da ideia de plenitude do indivíduo ao preenchimento por um par amoroso à uma necessidade espiritual decorrente do afastamento do Eu de cada um, da ausência de autoconhecimento, à ignorância da suave fogueira do amor universal – que existe em todos e que foi divinamente criada para que cresça – que habita dentro de cada ser humano, não sendo necessário ninguém para que seja descoberta e se expanda. Então projetamos essa divindade no outro, na figura de um ser perfeito que vai nos fornecer o que não conseguimos alcançar sozinhos. Logo percebemos que, o que buscamos, aquela pessoa não poderá nos presentear. Nem ela, nem ninguém. Daí vem a correta, bem conhecida e incompreendida frase “ninguém faz alguém feliz”. As pessoas precisam entender que primeiro precisamos nos resolver internamente e sozinhos; depois, podemos nos aperfeiçoar através de um delicioso relacionamento produtivo em que ambos evoluem como seres humanos dotados de imensas capacidades de amar. Mas isso só será possível se o outro também já teve a mesma atitude para consigo mesmo.

Canso de ouvir mulheres falando sobre os seus medos de ficarem sozinhas. Muitas estão solteiras e se dizem querendo muito amar e ser amadas. Algumas querem casar. Muitas outras, casadas, dizem, do mesmo jeito, que querem amar e ser amadas. As primeiras declaram seus medos de permanecerem sozinhas. As que já possuem marido e filhos afirmam seus pânicos de, depois de tantos anos, verem-se novamente sozinhas, apesar de não sentirem mais nada pelo companheiro, a não ser respeito pela seriedade com que lida com o seu protocolar papel de marido e pai. O amante já saltou pela janela há muito tempo. Trata-se de uma carência generalizada que, infelizmente, tem como objeto o encontro de alguém. Não percebem que é a si mesmas que precisam encontrar..

Amor real por um homem? Podem me apedrejar mas, em minha opinião, afirmo que a maioria das mulheres nunca soube o que é isso. E eles? Infinitamente menos. O que reina em nossa sociedade é a caridade, o altruísmo que visa à fuga de carências do seu agente, condescendência, permissividade, dependência afetiva e econômica, insegurança, medo, etc. Vivemos em uma sociedade indigente, quando o assunto é amor. Mas também não me venham perguntar o que ele é porque eu não sei e nem me atrevo a definir. Não é necessário, não me importa. Mas sei o que o não é. Todos nós nascemos com imenso potencial para amar e ser feliz e, para isso, precisamos viver os sentimentos e não de definições acerca do estes são. Concordo com Erich Fromm, quando afirma que, mesmo que nos dediquemos a vida inteira ao aprendizado do amor, aos cem anos não teremos desenvolvido todas as nossas potencialidades como ser humano. Logo, é utopia falar em plenitude do amor, pois nunca será alvançada. Creio, também, que ele tem uma parcela muito mais racional do que se imagina, ao contrário do que pensam, quando afirmam que ele cai do céu na figura da cara metade, que é pura emoção e que não tem explicação. Isso é infantil demais. Amar exige dedicação sim, como afirmam; mas não dedicação ao outro, e sim a se conhecer muito bem e depois ter coragem de se apresentar sem medo de críticas. O desenvolvimento do amor sexual necessita de afinidades, de caminhos paralelos, de desnudamentos mútuos das almas, da análise de quem é quem, de “se você é realmente quem afirma ser”. Em nossa sociedade, o amor precisa dispor, para ser alcançado, de um lado inicial bem racional, principalmente, que será o responsável por nos livrar dos engodos e armadilhas culturais.

Apesar de atitudes semelhantes diante do amor romântico, homens e mulheres possuem uma característica bem diferente. As ideias dos homens acerca do amor e dos relacionamentos estão fincadas no concreto, com um puta traçado de cimento. Elas, apesar de terem aprendido a valorizar as características masculinas e as buscarem, são muito mais suscetíveis a amar de forma verdadeira, a respeitar o outro como ele é. Na verdade, apesar de serem chamadas de românticas e piegas, as mulheres sempre estão dispostas a se rebelar contra o que os homens acham que existe de mais enraizado nelas: o romantismo. Basta um empurrão, um olhar confiante, um desejo verdadeiro, uma oportunidade de serem amadas exatamente como são, sem precisarem representar o maldito personagem virtuoso. A mulher quer carinho verdadeiro e sem cobrança, não o romantismo; quer ser ouvida como mulher e não como esposa idealizada; apesar de agradável, ela não quer flor, abertura de porta, surpresinhas, lembranças de datas, ser tratada como bibelô, etc. Embora interessantes, são gestos irrelevantes e que de concreto pouco acrescentam à relação, se confrontados com atitudes realmente proativas e que causam evoluções individuais e a dois. A sociedade, há séculos, quer ditar para a mulher o que ela realmente gosta e o que lhe dá prazer. Muitas acreditam ou fingem acreditar nesses ditames, por diversas razões e interesses. Mas não vêem a hora de se livrarem deles.

Em minha opinião, mulher quer amar. Mesmo as dondocas que se aproveitam do machismo reinante para serem sustentadas, as putas, ladras, as que desistiram do amor, as freiras, santas, etc. Todos queremos e precisamos amar, os homens querem amar – apesar de não o saberem, Hitler queria amar. Amar faz parte da essência de nossa existência. Voltando à natureza feminina, ela é amor. Seria redundante eu dizer que ela quer ser respeitada porque, sem respeito, não se ama, não se é amado. E o que seria esse respeito? As pessoas depreciaram essa palavra e a reduziram a “não trair”. Isso é ridículo. Imagine o nosso parceiro mergulhando em nossa mente e lá ficando horas, em silêncio, tudo observando e analisando, contemplativo como se estivesse em um museu de arte com obras rupestres, medievais, barrocas, renascentistas, modernas, futuristas, loucas, abstratas, etc. Então ele volta, olha-nos nos olhos e diz. “Adorei saber quem você é, do que gosta e o que deseja, e por isso mesmo te quero do meu lado”. Isso é respeito!

Chegamos ao fim do artigo, mas acho que faltou algo que prometi no título. E a traição? Eu realmente ia escrever sobre ela, mas o texto ficou longo. Mesmo assim, decidi não mudá-lo, por uma razão. Quero deixar claro que muitas mulheres cometem um equívoco exatamente por terem sido “forçadas” a adotar uma forma masculina de pensar – muito mais de se expressar do que de realmente pensar. Essa incorporação foi superficial e jamais será totalmente internada em seu íntimo. Mulher quer amar. Por mais que muitas se permitam a ter aventuras ou amantes fora dos namoros e casamentos e afirmem querer apenas sexo, isso é uma inverdade. Homens desejam fêmeas e mulheres desejam amar, por mais que afirmem querer pau e gozar (fora de mim dizer que um pau e alguns gozos não seriam muito bem-vindos, mas é pouco para satisfazer o âmago de uma mulher). Esse “querer amar” não é romantismo piegas e de forma alguma dá pouca importância ao sexo. Quero dizer que a natureza da mulher está longe de ser tão promíscua quanto a do homem, apesar de, em algum(ns) momento(s) de sua vida, desejá-lo ser e agir como tal. Normalmente, depois ela se retrai. Trata-se apenas de um mais maduro entendimento feminino do que viemos a este mundo.

As mulheres podem estar tão perdidas quanto os homens a respeito do caminho que inicia alguém na arte do amor verdadeiro… e realmente estão. Mas elas possuem um discernimento muito superior acerca do que “não é amar”. Se, à medida que amadureço, defino melhor o que não quero, de alguma forma e, por eliminação, aproximo-me mais do que quero. Essa atitude, por si só, já faz uma grande diferença e é a principal razão de tantas mulheres pedirem a separação e de, depois, manterem-se, de alguma forma e por algum tempo, afastadas dos homens.

A vontade que uma mulher e um homem “comprometidos” têm de se relacionar com outra pessoa – da parte dela, isso é muito mais comum do que os homens pensam – deve-se a vários fatores distintos entre os gêneros, que serão analisados no próximo artigo. Sem dúvida, será uma continuação deste texto, pois se primeiro não falarmos do amor de forma lúcida, jamais conseguiremos tratar o fantasma da traição com maturidade e sem preconceitos. Apesar da indiscutível existência do viés da curiosidade sobre a variação sexual, esclarecerei que o simples desejo ou ato da “traição” feminina encontram maior peso na carência de verdadeiros sentimentos afetivos na relação. A solidão no casamento impulsiona bem mais a mulher para a execução de suas fantasias, quando confrontada com o instinto sexual, apesar de ser este, também, um fato. Mulher quer amar. Amor, carinho real e envolvimento se confundem muito e para eles existem várias escalas… cada um dê o nome que quiser para essas sensações. Particularmente, prefiro não rotular sentimentos.

Apenas uma reflexão final: quando casamos, prometemos amar na alegria e na tristeza e ser fiéis até a morte. O amor acaba, isso é tido como “natural”, e ambos convivem com tal questão em função de conformismos, culpas, covardias, necessidades reais e interesses. Porém, a promessa de serem fiéis sempre foi e continuará sendo seriamente cobrada e, caso quebrada, é severamente julgada – claro que infinitamente mais quando a mulher se encontra no banco dos réus, gerando toda sorte de problemas e tragédias de que tomamos conhecimento. Por quê? O que isso representa? Por que não é importante e imprescindível ser feliz, ter alegrias reais? Por que ciúme e posse são assuntos que exigem tanto desvelo e o amor é tratado como algo totalmente prescindível, como se fosse um supérfluo artigo de luxo apenas desejado, mas que, de fato, não faz falta?

“A sociedade moderna, a despeito de toda ênfase que atribui à felicidade, à individualidade e ao interesse de cada um, ensinou ao homem que não é a sua felicidade a meta da vida, e sim a satisfação do seu dever de trabalhar e de ter sucesso. Ele age na ilusão de que suas ações beneficiam seu interesse próprio, embora, na verdade, ele atenda a tudo mais, exceto aos interesses do seu “eu” real. Tudo é importante para ele, salvo sua vida e a arte de viver; é a favor de tudo, exceto de si mesmo.”
Erich Fromm

Para aqueles que se interessarem, recomendo algumas leituras que profundamente elucidam os assuntos aqui tratados:

Erich Fromm: A Arte de Amar, Análise do Homem e O Medo à Liberdade.
Robert A. Johnson: We – A Chave da Psicologia do Amor Romântico
Rollo May: O Homem a Procura de Si Mesmo

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Comentário para 24. Amor e traição

  1. Rafael Prista escreveu:

    Salve Cesar,

    Passei aqui pra conhecer e gostei. Não tive muito tempo para ler com vagar as suas crôcicas, mas volto em breve com mais tempo.
    Um grande abraço.
    Rafael

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