É possível amar duas ou mais pessoas ao mesmo tempo? Muitos se fazem essa pergunta ou a discutem com amigos íntimos. Por questões culturais óbvias, esse assunto encontra-se fora da pauta da maioria dos casais.
Escrevi sobre esse tema há quase dois anos, no artigo 13. Poliamor. Hoje possuo considerações razoavelmente diferentes das que explanei, naquela época. Se minha forma de compreender o amor está se transformando, torna-se compreensível a mudança, também, do modo como o enxergo, diante da possibilidade de ter mais de um objeto.
No campo subjetivo e dos sentimentos, em função dos valores culturais nos quais nos fizeram acreditar, penso ser a capacidade de amar um parceiro a meta mais árdua a ser alcançada por um ser humano. Tal fato se explica pela tendência narcisista, reforçada pela cultura, que nos faz tropeçar em um pacote formado pelo medo do futuro, posse, egoísmo, vaidade, etc. Então, encontrá-lo e se manter no caminho do conhecimento do amor depende da ousadia e coragem de não se permitir perceber, pensar, sentir e agir em consonância com as ideias disseminadas pela sociedade. Para os mais esclarecidos, existem interpretações um pouco distintas a respeito do amor, assim como há divergências nas defesas e ataques a algumas práticas que o representem ou não. Comumente, nossas restrições psico-emocionais balizam nossas retóricas. Até existe um consenso a respeito do amor romântico, quando assistimos ou lemos e tentamos trazer para o mundo real as ideias e os sonhos de novelas, filmes e livros ficcionais. No entanto, como estou cansado de saber que eles só funcionam nas telas e páginas, a massificação desse comportamento e suas frustradas tentativas não serão objetos de abordagem neste artigo, pois já o foram antes.
Quando conseguimos fugir dos comportamentos comuns e nos tomamos de coragem para transpor os
engessados modelos, as críticas são certas e amplamente esperadas. O ser humano adora julgar. Em função da vaidade, vivemos em uma cultura em que o não estar certo ou não ter uma opinião formada é vergonhoso e, consequentemente, temos dificuldade de aceitar em nós mesmos o que deveria ser uma normal ignorância acerca de um assunto que nunca foi vivenciado. Acabamos tendo respostas prontas para coisas estranhas às nossas realidades e soltamos as bombas. Baseados em que? Em nada. As pessoas precisam entender que a humildade ao se dizer “não sei” ou “não tenho opinião formada” é charmosa e admirável.
De uma forma bem simplista, baseamos nossas escolhas nas nossas capacidades de processar e concluir as informações colhidas em nossas experiências passadas. Estas, por sua vez, também dependeram de decisões pregressas – compreensivelmente e, na maioria dos casos, exceto na infância e no início da adolescência, quando somos quase totalmente cerceados de decisões. Logo após essa fase, passamos a decidir e temos o livre arbítrio para mudar quadros provocados por orientações e educações equivocadas. Mais uma vez, somos resultados de nossas escolhas.
Se o modo de vida que uma pessoa tem hoje é fruto de suas escolhas e experiências passadas, como pode alguém ser considerado um homem ou uma mulher maduros? Quem viveu todas as experiências possíveis? Nem Jesus, Buda, Maomé, Krishna, etc. Creio que não apenas não vivemos todas – tanto pelo pouco tempo que vivemos como por limitações impostas por nós mesmos, como vivemos quase nenhuma, diante da gama de possibilidades. Dá-me uma triste vontade de rir quando ouço alguém dizer que já fez de tudo nessa vida. É arrogância demais. Nesse sentido, acredito que todos temos inúmeras crianças dentro de nós e alguns poucos adultos com maturidades distintas; cada uma delas e cada um deles desenvolvem-se em determinadas áreas de conhecimento, de acordo com o que cada pessoa se predispõe a viver, refletir e concluir. Ou seja, o mais sensato é sermos humildes e aceitarmos a realidade da predominância da imaturidade em todos nós, além de respeitar as escolhas de cada um. Em minha análise, na passagem bíblica abaixo, atribuída a Jesus, ela faz referência à arrogância e a humildade sobre o conhecimento.
“Deixai vir a mim as criancinhas e não as impeçais, porque o Reino de Deus é daqueles que se parecem com elas. Em verdade vos declaro: quem não receber o Reino de Deus como uma criancinha, nele não entrará.” (Lucas 18,15-17)
Voltando ao tema, é possível amar duas ou mais pessoas ao mesmo tempo? Em minha opinião, afirmo ser, no mínimo, muito difícil. Por outro lado, não apenas é possível, como é uma realidade para muitas pessoas o relacionamento aberto, a troca de casais, ménage, alguma forma de burlar a lei e viver a poligamia, etc. Porém, dentro de minhas limitações e considerando a semântica da palavra, acho improvável a vivência de um real poliamor. Sexo com algum tipo de desejo e afeição é algo muito distante de amor. Porém, improvável não é impossível. Faço questão de querer evitar a arrogância de rotular o difícil e trabalhoso como impossível, baseado em falta de experiência, conhecimento e/ou limitações próprias.
Se insistem em chamar de amor o sentimento existente entre a maioria dos casais – o que defendo que não é, então aceito a possibilidade do poliamor. Mas, dentro do meu conceito de amor – e de alguns outros pensadores, é bem difícil estabelecer duas simultâneas relações de amor. Esse assunto, provavelmente, vai gerar um outro artigo em que conversaremos sobre sexo e vaidade.
A construção de uma relação autêntica e terna é baseada no cuidado, na cumplicidade, no desejo real de conhecimentos mútuos visando ao acompanhamento e à participação no crescimento do outro. Jamais o objetivo é prender um ao outro, apesar de existir o desejo real da continuidade do relacionamento. Existe algo que parece mágico no amor verdadeiro, que é a sensação de fusão, de simbiose entre o par, sem, no entanto, que nenhum dos dois perca sua individualidade. Nesse tipo de relação, quando ocorrem divergências a respeito de algum comportamento do parceiro, o ofendido busca, através da reflexão, o discernimento de tentar entender se a sua exigência é realmente justa ou não; ele esforça-se para desviar a solução do problema de sua angústia narcisista e tenta concentrá-la no coerente respeito à individualidade. Ao mesmo tempo que o amor envolve os parceiros em uma espécie de bolha simbiótica, cria neles a consciência do individualismo ético – que nada tem a ver com egoísmo.
Soa-lhe como romântica e normal essa relação? Mas não é. Ela realmente é possível mas nada tem a ver com romantismo. Carinho, afeto, ternura, companheirismo e confiança são ingredientes possíveis em uma relação a dois, no entanto, difíceis de serem conseguidos. Para os que refletem e estudam o assunto relacionamentos, o romantismo é um truque, uma fantasia. Por quê? Em uma sociedade que prega a força e a praticidade, impera o medo nos relacionamentos: medo de parecer frágil, de se decepcionar, de sentir dor, de ousar, de confiar, de falar e ouvir verdades, do amanhã, enfim, medo de ser muito feliz, pois, diante de uma ruptura, o tombo será muito maior. Sem dúvida alguma, o macho de nossa espécie é o maior medroso, exatamente pela obrigação social de ser o forte e prático predador que não sofre. Então, para nos enganarmos e encontrarmos algum conforto, banalizamos e usamos sem critérios as palavras amor, carinho, afeto, ternura, confiança, etc, quando, na verdade, elas só são aplicadas e demonstradas nas relações devido aos interesses próprios e de uma forma bem superficial e pontual, quando qualquer detector de mentiras analógico poderia fazer o trabalho de desmascarar o agrado.
A linguagem falada e a capacidade de pensar – dois maravilhosos privilégios dos seres humanos – são, ao mesmo tempo, duas perigosíssimas armadilhas. Se não falássemos, não tenho dúvida de que haveria muito mais comunicação e sinceridade entre os casais, pois a capacidade de sentir e a intuição seriam mais aguçadas – e esta última raramente se engana. A fala jamais conseguirá expressar um sentimento e suas possibilidades – seja ele bom ou ruim. Pelo contrário, só faz limitá-lo no batente em que conseguimos compreendê-lo.
Abrindo um parêntese e aproveitando nossa capacidade de nos comunicarmos através da fala, incito-os a, logo no início de um relacionamento, sentarem juntos e fazerem um glossário próprio e customizado do casal, quando discutirão e definirão os significados de palavras como: amor, amizade, egoísmo, individualidade, cumplicidade, liberdade, carinho, cuidado, fidelidade, infidelidade, lealdade, etc. A negação dessa conversa franca e o desacordo sobre esses significados tem levado as relações para a lama e semeado mágoa e ódio entre os casais, mesmo durante o casamento. Na maioria dos casos, juntam-se e procriam sem terem uma visão clara do que esperar do outro, pois não tornaram transparentes suas formas de enxergar os assuntos mais complexos e polêmicos da vida a dois. Os que se saem melhor, no máximo, toleram-se bem.
Como disse o psicanalista Erich Fromm, amar é uma arte. Como no estudo de um instrumento musical, desenvolver esse sentimento exige determinação, tempo e autocrítica para que possamos começar a arrancar dele, pelo menos, algumas notas e acordes harmônicos e agradáveis aos ouvidos. Quando jovens, as pessoas dizem que vão amar e que viver o amor é questão de tempo. Imenso e frustrante equívoco. Com o passar dos anos, a maioria desiste e, tristemente, arquiva esse assunto. Da mesma forma, vemos muitos violões encostados, pendurados e empoeirados em muitas casas. Seus donos os compraram e acharam que em três meses estariam tocando bossa nova. Desistiram. Muitos casais gostariam de ver esposas e maridos pendurados ao lado dos violões, inertes e mudos do mesmo jeito. Acho que, por questões morais, até tirariam a poeira de vez em quando.
Assim como um músico consciente, mesmo muito experiente, jamais diz que conhece todas as possibilidades de sons que consegue tirar do seu instrumento, um aprendiz do amor, como todos nós somos, deve pensar muito antes de afirmar que sabe o que é amar. Amar é uma arte. O aprendizado de uma arte não termina nunca; quem é apaixonado por uma, morre estudando-a. Estou me apaixonando pelo estudo do amor e pelo que ele tem me proporcionado.
Apesar da similaridade, existe uma característica que difere essas duas artes. Dependendo da habilidade de cada um, existe a possibilidade de se estudar um instrumento com pouca ajuda ou mesmo sozinho. Sobre o relacionamento amoroso, o mesmo não se aplica. Com raríssimas exceções, só se aprende a amar tendo um parceiro como objeto, pois precisamos dele para aprender a desenvolver o respeito à individualidade, extirpar o sentimento de posse, egoísmo, e para muitos outros exercícios que só são aprendidos dentro de uma relação. Digo isso porque um cresce através do outro; um se desenvolve e evolui através do carinho, paciência e estímulo do outro.
Por isso, creio ser bem difícil viver o poliamor – dois amores de verdade. Acho que com apenas um, se bem conduzido, já podemos ter dever de casa – conquistas, surpresas e alegrias – por muito tempo, por anos e, quem sabe, para sempre? Isso é o menos importante. O essencial é tocar e evoluir, hoje, agora. Acredito que o amor e a busca do centro do outro pode nos apresentar uma infinita possibilidade de novos sons no parceiro.
Apesar de esse processo de aprender a amar ser difícil – e até doloroso, celebra-se deliciosamente cada conquista de um novo acorde bem executado. Porém, de fato, ele dá trabalho. Durante a caminhada, temos que destruir quase tudo que nos ensinaram e tivemos como exemplo e reconstruir nossas próprias convicções; temos que ser determinados para prosseguir sem referências por perto, além de não podermos nos importar quando nos acharem um casal “estranho”.
Aos verdadeiramente interessados em aprender essa arte, digo que a dedicação a ela necessária e os prazeres advindos das novas descobertas nos embriagam e consomem a ponto de nos distrair das possibilidades e vontades de outros envolvimentos. Acaba não sobrando espaço para mais uma pessoa. Pode-se dizer, também, que, no mínimo, dá preguiça, diante de uma antecipada conclusão de que, devido ao que se está vivendo, não valerá a pena. Sou um grande artista dessa arte? De forma alguma. Sou imaturo e vou morrer a estudando e aprendendo.
Posso estar enganado e me limitando, mas, até o momento, foram a essas conclusões que minhas experiências conseguiram me levar.


Concordo que amar é uma arte, conforme diz o autor do livro, mas como a própria arte em si, pode ter significados diferentes quando olhada em épocas distintas. Assim também é o amor, muda de acordo com o tempo. Inicialmente emociona e depois, causa outras sensações, diferentes da inicial, sem deixar de ser amor. Portanto, aos que acreditam e buscam, com o passar do tempo, as mesmas emoções iniciais, passarão o resto da vida buscando. Os emocionalmente frágeis, ficarão frustrados, pois acreditarão nunca tê-lo encontrado. Os inquietos, conhecendo apenas uma de suas inúmeras facetas, as que eles acreditam ser a única, perderão a oportunidade de conhecê-lo nas inúmeras outras formas que ele pode se apresentar. Embora consiga admirar o texto aqui escrito, perceber suas verdades, não posso deixar de dizer que assim como a TV não é a verdade, a internet recheada com seus blog e artigos de auto-ajuda, também não o é. Façamos um filtro das coisas que lemos, caso contrário, estaremos, mais uma vez, imitando modelos. Sejamos nós mesmos e vivamos nossas sensações, de acordo com o que intuímos ser o melhor.
Entrei no seu site agora li a que se propõe e vou ler com atenção seus artigos.
em breve mandarei comentários
obs. peguei o endereço do seu site acho que com voce e sua esposa num barzinho de rock na lapa sabado retrasado.
” Se voce acha que ama duas pessoas ao mesmo tempo, escolha a segunda. Porque se voce realmente amasse a primeira, não teria uma segunda opçao”.
Querido adm. vejo que voce andou revendo seus conceitos, hoje pensa bastante diferente de alguns anos atras. Continuo de vez em quando acessando seu blog e creio ter acompanhado algumas dessas mudancas….o blog está mais atraente e com mais conteudo, fiquei feliz. Acredito ter aprendido muito com voce; e mesmo admitindo que o romantismo está presente em minha vida, vejo hoje outras formas de pensar. beijinhu
Carol, concordo com você. Mesmo que a maioria das pessoas não compreenda isso, as respostas para as nossas questões encontram-se dentro de cada um de nós e, exatamente por isso, que autoajuda não serve para nada. Qualquer tipo de leitura, mesmo as filosofias sérias, só age, de alguma forma, se encontrar um terreno receptivo e ansioso por respostas e informações. Dificilmente, a sequência do saber é “leitura-sentimento-ação”. Acho que a ordem é “incômodo e sentimento-leitura de reforço ou de ordenação das ideias-ação”.
Aqueles que pensam que “sabem” não se sensibilizam com leituras que contrariam os princípios que regem suas vidas, pois, o saber sobre a vida exige o esvaziamento de certezas. A autoajuda vem cheia de certezas e respostas e não provocam o incômodo interno. Apenas oferecem receitas, como se fôssemos robôs idênticos uns aos outros. Por isso vendem tanto: todos querem facilidades, ninguém quer sentir a dor da experiência para tirar suas conclusões. Besteira.
Numa, fiquei muito feliz ao ler o seu comentário. Feliz mesmo. Um homem comum me diria que estou me tornando um idiota romântico que jogou a toalha como macho, que estou ficando velho, etc. Uma mulher me diz que estou amadurecendo. Por isso a minha admiração pelo feminino, pelo sentido de vida que vocês naturalmente carregam; um amadurecimento admirável, mesmo quando muitas das vezes precisam escondê-lo, para “sobreviverem”. Vamos continuar trocando.
amor exige coragem…eh bem mais facil a gente mostrar a mesma faceta para todos os amores multiplos e fragmentados do que nos desnudarmos e nos fragilizarmos por isso diante do amor que sentimos por alguem. O amor assim livre e autentico eh o atalho para sermos quem de fato somos, para acharmos o caminho de casa….