Curtas

Certo e errado

Os conceitos de certo e errado fazem parte, há milênios, da vida social dos seres humanos, assim como dos seus imaginários, como indivíduos. Nos relacionamentos, os conflitos pessoais em torno do “desejo mas é errado” e “não desejo mas é o correto” acompanham e atormentam quase todos nós, diariamente, gerando sentimentos castradores do experimento da liberdade: a culpa e o medo. Eles, também, são as raízes das mentiras, quando inúmeras vezes escolhemos fazer o que “não podemos” e, com egoísmo e para nos proteger das cobranças e julgamentos alheios, delas lançamos mão.

Nossa única preocupação deve ser com a ética. Nada é errado e tudo é permitido, contanto que jamais deixemos de avaliar e refletir sobre a possibilidade de os sentimentos e as expectativas de pessoas próximas serem negativamente afetados pelos nossos atos. Precisamos evitar os comportamentos narcisistas que tanto magoam aqueles que dizemos amar e ter a coragem de deixá-los saber, exatamente, como pensamos e o que somos capazes de fazer. Isso é ser autêntico.

Sou um homem que, atualmente, busca a evolução interior e que percebe serem muitas práticas indiferentes ou desvantajosas para tal meta. No entanto, tenho aprendido também que, sem liberdade, sem o livre arbítrio, sem a ação, nada aprendemos. Observo que a evolução é totalmente dependente das experiências próprias que, depois, devem ser refletidas e avaliadas.

Ouse, tente, mate suas curiosidades; sem culpas. Você é o único responsável pela sua vida e evolução. Porém, tenha a coragem de deixar saber a quem possa interessar o quanto você é ousado e curioso – sem mais nem menos. Isso é ser autêntico, ético. Do contrário, você jamais deixará de ser um simples covarde.

Ser autêntico

O ser humano possui o singular instinto do amor, do desejo de uma espécie de simbiose com outra pessoa. Diferentemente do que se pensa, mesmo os mais evoluídos e independentes preferem amar e ser amados, ter um parceiro ao lado. Porém, poucos conseguem se tornar indivíduos únicos, autênticos. Cagam-se de medo de ser diferentes, de fazer suas próprias escolhas e, consequentemente, não ser aceitos nas tribos. Então, elegem celebridades, objetos de imitações e delas copiam pensamentos, falas, hábitos e gostos.

Nos relacionamentos, mal começa um e num piscar de olhos veem-se facilmente sendo anganados ou trocados por outras pessoas. Página virada. Desiludido, conclui: “Ninguém quer nada sério!”.

Caro amigo, se prefere ser igual a todos e quer um outro também igual ao modelo ditado, tanto faz você, ele, ela, outro ou outra; vocês não passarão de “commodities” – mercadorias de baixo valor agregado, produzidas por muitas empresas e em grande quantidade. Dessa forma, sem dúvida, o desejo pela novidade e mudança sempre será muito maior e mais excitante do que pela continuidade com você.

Seja e viva uma identidade, que você sempre será uma novidade – para si mesmo e para o outro. Uma personagem jamais será amada, por mais que assim queiramos.

Real ou virtual?

Durante esta semana, assisti a uma entrevista de Antônio Abujamra com o psicanalista Contardo Calligaris. Este, perguntado acerca do que pensa sobre sites de relacionamentos, com um ótimo senso de realidade, respondeu que percebe muito pouca diferença entre os encontros através destes e aqueles que ocorrem sem a utilização da ferramenta Internet, pois também os considera virtuais.

Acredito não haver dificuldade para enxergarmos coerência na colocação do pensador: com raríssimas exceções, nos dois casos, os seres não se apresentam como são; não assumem o que, de fato, pensam; não expressam as verdadeiras magnitudes dos seus preconceitos, intolerâncias e fraquezas; as conversas são banais e superficiais; não estão minimamente interessados em conhecer e serem conhecidos de verdade e o maior objetivo é impressionar, seduzir e conseguir sexo. As grandes diferenças são que, pessoalmente, não existem aberrações ortográficas, as fotos são sempre verdadeiras – e atuais -  e, por questões práticas e óbvias, idiotices, mentiras e contradições demoram um pouco mais para se revelar.

Fidelidade ou lealdade nos relacionamentos

À medida que, minimamente, a filosofia nos torna mais maduros – ou menos idiotas, começamos a fazer distinções entre palavras que, durante a vida inteira, usamos como sinônimas. Então, passamos a atribuir-lhes significados diferentes do conhecimento comum, quando geramos um glossário próprio que, às vezes, exige sua apresentação, antes de textos e conversas. Fidelidade e lealdade são bons exemplos.

A fidelidade é a qualidade norteadora de todas as relações baseadas no amor romântico. A sua falta gera o mais repudiado e indesejado adjetivo do macho: corno; veado incomoda infinitamente menos. Seu foco é a exclusividade sexual sobre o corpo do parceiro. Ponto. Se há o cumprimento de sua promessa, palmas e reverências para o virtuoso. Quem não a quebra autoelege-se o melhor dos seres humanos. Afinal, o casamento estar uma merda é apenas um bobo detalhe. Fidelidade nada tem a ver com ideias, verdades, individualidade e filosofia de vida. Tem a ver com o não compartilhamento do parceiro objeto. Para que questioná-la, já que ela é óbvia, tácita e perene? Fidelidade não exige evolução da intimidade experienciada e dialogada. Resumir o bom casamento ao social e aparente conceito de fidelidade é postura de pessoas inseguras – sendo mais objetivo, de seres covardes.

A lealdade, diferentemente, é um pacto maduro, maleável e acompanha as evoluções e mudanças dos parceiros, já que se encontram sempre dispostos a dialogar sobre elas. Ela é formada por afinidades de ideias e busca, em ambos, respeitar suas possíveis mutações. Consequentemente, podem ocorrer reformulações em algumas “regras” do relacionamento, caso ambos estejam de acordo. Lealdade é para casais pensadores e corajosos.

A fidelidade é engessada e, como já estamos cansados de saber, tem suas regras quebradas, sempre que possível e pela maioria dos casais. Às vezes, unilateralmente; em muitas, de forma bilateral. Às vezes, sem o outro ter a mínima ideia do que possa estar acontecendo; em outras, usa-se a famosa e conveniente “vista grossa”.

A lealdade considera a ética e só existe entre casais muito maduros e com autoestimas elevadas. Devido às verdades, sabe-se o que o outro é capaz de fazer e nos cabe, apenas, continuar ou desistir – por limitações próprias ou por filosofias de vida distintas. As regras são claras e não há espaço para as mentiras. Nela, o outro sou eu, é minha continuidade que jamais será machucada por mim. O psicólogo Thiago de Almeida afirma que “a maior dor não é ser traído, mas sim saber que o parceiro acredita que você ignora a situação. A infidelidade não vem do sexo, mas do segredo”. O pobre conceito de fidelidade pode, espontaneamente e sem qualquer tipo de ônus individual, existir na lealdade; mas jamais existirá a concepção de lealdade na fidelidade.

Na lealdade, ambos caminham de mãos dadas e felizes com as inúmeras descobertas a dois, mesmo e apesar dos exigidos momentos de reflexão para ajustes. Na fidelidade, uma mão é dada; na outra, uma faca – pronta a ser fincada nas costas do outro ou já enterrada no próprio peito. Ao sermos leais, respeitamos o ser humano – inclusive a nós mesmos; fiéis, apenas morremos de medo de encarar a realidade e o julgamento social.

Jura matrimonial

Jura esforçar-se ao máximo para preservar sua individualidade e de seu companheiro, atento para que elas não se transformem em egoísmos?

Jura querer conhecer de fato o seu companheiro e se deixar ser conhecido, estimulando e se interessando pela sua evolução interior?

Jura que, diferentemente do triste e equivocado senso comum, procurará ser o melhor amigo e confidente do seu companheiro e parceiro sexual?

Jura provocar e aceitar a conversa franca que gera intimidade de forma que ele jamais precise procurar alguém por não se sentir seguro para dividir suas experiências e angústias com você?

Jura não querer simular força e compreensão em situações em que elas não existam em você, mas sim dividir com o seu amado suas inseguranças, carências, fantasmas e fragilidades, principalmente no que se refere ao ciúme?

Jura, cada vez que se sentir incomodado com algum ato do seu amado, não guardar ressentimentos e chamá-lo para uma conversa sincera a fim de elucidar o fato e sua insatisfação?

Jura respeitar e cuidar da forma única de relacionamento que vocês dois estabelecerão, já que o modo de dois indivíduos também únicos se relacionarem nunca será igual a dos demais casais?

Jura que nunca o iludirá e não prometerá nada além da verdade e da lealdade, já que você não pode ter certeza alguma de que terá, de fato, no futuro, vontade de cumprir qualquer outro tipo de promessa?

Jura que se esforçará ao máximo para não permitir que incertezas e dúvidas acerca do futuro, inerentes à vida, sejam maiores do que a vontade e o prazer de amar no presente?

Jura que não permitirá que possíveis vaidades, desejos e curiosidades sejam colocados acima do pacto de lealdade e da divindade do amor diariamente expresso por vocês dois?

Jura permanecer ao seu lado apenas enquanto o amar e que terá coragem e dignidade para terminar esse casamento caso se perceba com predisposição para começar a tomar atitudes que irão magoar o seu amado ou sinta necessidade de mentir para que ele não se decepcione?

Jura estudar e se dedicar, junto com o seu parceiro, à difícil arte de amar?

Jura que, mesmo debaixo de forte tristeza, respeitará um possível desejo dele de partir?

Reinventando os relacionamentos

“Fazemos parte de uma geração que aposta e investe em uma maior qualidade do relacionamento amoroso. Mudar implica perdas e riscos, abrir mão de privilégios e questionar as imposições sociais, ter uma atitude criativa e crítica frente à própria vida, deixando de lado falsos mitos de felicidade. Temos a oportunidade – e o desafio – de inventar o casal, o casamento, a família, a vida que queremos para nós. Nesta invenção, em que os estereótipos sobre “ser homem” e “ser mulher” não deveriam ter lugar, acredito que ganham homens e mulheres que, sentindo-se responsáveis pela construção cotidiana da relação amorosa, não aceitam falsas promessas de uma existência mais fácil e segura, não adotam posturas de vítimas e não gastam suas energias em acusações mútuas, cobranças e fantasias.” Mirian Goldenberg – Antropóloga.

“Não haverá uma nova era se não houver uma nova família, pois a velha é, definitivamente, a célula mater deste horror que vivemos. [...] É a sujeira escondida embaixo do tapete da família a responsável pelas neuroses.” José Ângelo Gaiarsa – Psiquiatra.

Pais, filhos e relações abertas

A forma de relação amorosa que chamo de aberta não deve ser aplicada apenas ao parceiro sexual. Sua filosofia deveria ser aplicada a todos os demais relacionamentos; principalmente, entre pais e filhos, que, em geral, são tão ou mais doentes quanto os entre casais. As relações familiares pobres, mancas, regidas pelas inseguranças, culpas, chantagens, controles, coersões, retaliações e permissividades egoístas que, hipocritamente, são justificados em nome do amor, são as raizes dessa sociedade doente em que vivemos, formada por seres humanos neuroticamente normais. Através de exemplos de aberturas em seu lar, desde o berço até a adolescência, o jovem poderia ter o entendimento da importância de uma relação aberta com sua futura esposa e filhos. Infelizmente, desde cedo, ele só aprende a ter medo e a mentir para si mesmo, para qualquer pessoa e em qualquer situação em que exista o risco de perder algo, caso escolha ser verdadeiro.

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